
Foto de terceiros. Este hotel já não existe sob este nome — opera atualmente como "InterContinental Barcelona", no mesmo edifício (Av. de Rius i Taulet).

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Em 1998 casámo-nos. Sem grandes recursos, como tantos começos, a nossa lua de mel não foi uma viagem distante ou luxuosa. Foi Barcelona.
Ficámos no Fira Palace, um hotel que hoje provavelmente já não escolheríamos, mas que naquela altura parecia incrível. Tudo era novo. Tudo tinha um encanto especial.
Barcelona fascinou-nos. As Ramblas cheias de vida, Montjuïc, as vistas do Tibidabo, as ruas diferentes, os horários diferentes, os sabores que ainda estávamos a descobrir.
Era a primeira vez que estávamos longe de casa juntos como casal. E talvez por isso tudo parecesse maior.
Tínhamos o entusiasmo de quem descobre o mundo pela primeira vez, quase como crianças.
E foi precisamente com esse entusiasmo infantil que cometemos uma pequena loucura: começámos a saltar em cima da cama.
O problema é que já não tínhamos idade para essas brincadeiras. Não éramos crianças de 10 anos; éramos dois recém-casados com mais 12 anos em cima. A cama não resistiu.
Nada de dramático. Apenas uma pequena roda que deixou de funcionar e uma memória que ficou.
Porque, no fundo, aquela cama partida dizia tudo sobre aquele momento: éramos jovens, estávamos felizes e tínhamos acabado de começar a nossa própria história de viagens.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
"Cidade maravilhosa, cheia de encantos mil."
Poucas descrições parecem tão adequadas como esta para o Rio de Janeiro.
Talvez uma das cidades mais magníficas do mundo, pela forma como a natureza decidiu desenhá-la: as baías, os morros a nascer do mar, a vegetação intensa e uma geografia que transforma cada vista numa imagem impossível de esquecer.
O Rio é uma cidade de contrastes. As cores, a luz e a alegria convivem com realidades muito diferentes. Os edifícios espelhados surgem ao lado de casas de tijolo nu, inacabadas, espalhadas pelos morros. A exuberância da cidade convive com uma pobreza profunda, criando uma paisagem única, impossível de comparar com qualquer outra.
O azul do mar contrasta com o branco dos barcos que atravessam as baías. O verde intenso da vegetação encontra o azul da água. Tudo parece exagerado: as cores, os sons, a energia.
Mas o Rio também nos mostrou outra realidade.
Estávamos na praia com amigos. O Paulo e outro amigo tinham ido ao mar, enquanto eu e a nossa amiga ficámos sentadas na toalha a vê-los brincar na água.
As malas e as máquinas fotográficas estavam mesmo ao nosso lado. Havia outras pessoas na praia, crianças a brincar, um ambiente descontraído que nos fez baixar a guarda.
Até que, num gesto completamente instintivo, a nossa amiga atirou-se para cima das malas.
Nesse instante, uns miúdos passaram muito perto das nossas coisas. Riram-se e continuaram caminho.
Não foi preciso dizer nada. Ela tinha percebido em segundos o que estava prestes a acontecer e protegeu aquilo que era nosso.
Durante um momento, houve apenas um olhar entre ela e os miúdos. Um daqueles instantes difíceis de explicar, em que todos perceberam o que tinha acontecido. E depois, como tantas vezes acontece na vida, houve um sorriso e tudo continuou.
Ficou-nos essa sensação curiosa do Rio: uma cidade onde a beleza e o perigo podem estar lado a lado. Onde se pode estar rodeado de uma paisagem absolutamente extraordinária e, ao mesmo tempo, lembrar que é preciso estar atento.
Talvez seja também isso que torna o Rio tão intenso. Nada ali é indiferente.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Miami foi um dos primeiros destinos intercontinentais que fizemos juntos.
Tudo era novo. Tudo parecia diferente. Mas talvez nada nos tenha surpreendido tanto como o clima.
Nascidos em Portugal, tínhamos uma ideia muito simples do verão: dias de sol, céu azul e calor. A chuva pertencia aos dias frios, às estações menos luminosas.
Em Miami descobrimos que podia ser diferente.
Ali, o calor e a chuva não eram opostos. Andavam juntos. A chuva podia cair no meio do verão, mas continuava quente.
Numa dessas tardes de piscina, já perto do anoitecer, estávamos rodeados pelas luzes e pelos neons tão característicos de Miami. A cidade começava a ganhar aquela atmosfera quase cinematográfica que tantas vezes tínhamos visto em imagens.
Foi então que chegou a trovoada.
Mas não era uma trovoada como conhecíamos.
A chuva começou a cair enquanto continuávamos na piscina. As gotas eram quentes, a água mantinha a mesma temperatura e, em vez de procurarmos abrigo, ficámos ali a viver aquele momento estranho e fascinante.
Era uma sensação difícil de explicar: estar dentro de água, debaixo de uma tempestade, com o calor do verão ainda presente.
Foi uma das primeiras vezes em que percebemos que viajar não é apenas conhecer lugares. É também descobrir que até as coisas mais familiares — como a chuva — podem ser completamente diferentes noutro lado do mundo.
Desde então, continuamos a procurar esses climas tropicais, onde o calor, a água e a natureza se misturam de uma forma que nos fascina.








Imagem ilustrativa gerada por IA.
Edinburgh foi a primeira viagem que fizemos depois de nos mudarmos para Dublin.
Foi também uma surpresa.
Durante muito tempo dizia ao Paulo que gostava de conhecer a cidade.
Ele, pelo contrário, nunca mostrava grande interesse.
Por isso, no nosso 9.º aniversário de casamento, preparou tudo sem me dizer nada.
Só descobri o destino quando já não havia surpresas para estragar.
Talvez por isso Edinburgh tenha ficado ligada a um momento muito mais importante do que a própria viagem.
Foi a primeira escapadela da nossa nova vida em Dublin.
E a prova de que, às vezes, os melhores presentes são precisamente aqueles que menos esperamos.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Depois de Lauterbrunnen, continuámos a subir até Wengen, uma pequena vila alpina onde os carros não entram e onde parece que o tempo decidiu andar mais devagar.
Mas talvez a parte mais extraordinária de Wengen tenha começado antes de chegarmos.
O comboio começa lentamente a subir pela encosta acima de Lauterbrunnen. A cada curva, o vale vai ficando mais distante, as montanhas maiores e a sensação é de estar a entrar devagar num cenário impossível.
E então, num desses momentos em que não estamos à espera de nada, aparece a vista.
Durante alguns segundos, o vale de Lauterbrunnen abre-se completamente diante de nós.
As paredes de rocha quase verticais elevam-se dos dois lados, a cascata parece minúscula perante aquela imensidão e as pequenas aldeias no fundo do vale transformam-se em pontos quase invisíveis.
É uma imagem que dura apenas alguns segundos.
Mas fica.
Quando finalmente chegámos a Wengen, percebemos que a experiência já tinha começado muito antes. A vila era bonita e tranquila, mas o caminho até lá tinha-nos dado um daqueles momentos que não estavam no plano.
Nos Alpes, algumas viagens não são apenas sobre o lugar onde chegamos.
Às vezes, o melhor está no caminho.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Foi no The Cambrian, em Adelboden, que descobrimos um daqueles pequenos prazeres que passaram a fazer parte da nossa vida.
Uma piscina quente ao ar livre. Com os Alpes refletidos na água.
Não era apenas uma piscina de hotel. Era a sensação de estar dentro da paisagem, de poder mergulhar enquanto as montanhas permaneciam ali, imponentes, à nossa volta.
Foi uma imagem que ficou connosco: o contraste entre a água quente, o ar fresco da montanha e a grandiosidade dos Alpes.
Mas talvez o mais importante não tenha sido a vista. Foi a sensação.
Estar dentro de água quente enquanto lá fora está frio, a chover ou até a nevar tem algo de profundamente reconfortante. Não é apesar do mau tempo — é por causa dele. A chuva deixou de ser apenas um contratempo e passou mesmo a fazer parte da experiência.
Foi ali que descobrimos esse prazer: a antecipação de um dia cinzento, sabendo que no fim nos esperava água quente, tranquilidade e aquela sensação de conforto absoluto.
Mais tarde, em Genebra, encontrámos o Bain Bleu, onde voltámos a viver essa combinação, embora sem a mesma envolvência dramática das montanhas de Adelboden.
Hoje, esse mesmo prazer continua presente nas nossas idas às termas na Galiza. No inverno, fazemos praticamente todas as semanas a viagem de uma hora e quarenta minutos para cada lado, porque há dias em que o frio e a chuva já não são apenas meteorologia: são o cenário perfeito para esse momento.
Porque há prazeres simples que, depois de descobertos, deixam de ser apenas uma experiência de viagem.
Passam a fazer parte da vida.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
A nossa primeira visita a Roma aconteceu em 2008, numa viagem especial: a celebração dos nossos 10 anos de casamento.
Mas Roma não foi amor à primeira vista.
A viagem tinha começado nos Alpes suíços, onde os dias eram feitos de silêncio, do som dos sinos das vacas ao longe e do ar puro da montanha. Estávamos rodeados de beleza natural, harmonia e tranquilidade.
Depois chegámos a Roma.
E a mudança não podia ter sido maior.
A cidade recebeu-nos com chuva, céu cinzento, greves e manifestações. Havia uma energia intensa nas ruas, mas não era aquela que tínhamos imaginado encontrar.
Não estávamos preparados para esse primeiro contacto.
O tempo escuro e chuvoso também não ajudou. Roma é uma cidade para caminhar sem destino, descobrir uma praça escondida, parar diante de um edifício antigo, deixar que a cidade aconteça ao ritmo dos nossos passos.
Mas nessa primeira visita, não conseguimos sentir verdadeiramente essa magia.
Às vezes, os lugares certos chegam no momento errado.
E algumas cidades precisam de uma segunda oportunidade.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
A Praça de São Marcos estava inundada.
Por cima da água tinham sido montados passadiços para permitir que as pessoas continuassem a atravessar a praça.
E, claro, estavam cheios de turistas.
Havia filas de pessoas a avançar lentamente por aquelas estreitas plataformas elevadas, enquanto a polícia tentava manter o trânsito em movimento.
Não podíamos parar.
Nem para tirar fotografias.
Os turistas queriam fotografar a praça inundada, os passadiços, a água por todo o lado e, claro, a própria Basílica de São Marcos.
A polícia queria exactamente o contrário.
— Andem.
E lá íamos nós, em fila, a atravessar uma Praça de São Marcos debaixo de água, sem sequer poder parar para guardar o momento.
Veneza tem destas coisas.
Até quando fica inundada, continua a receber turistas.
Só que, naquele dia, com regras de trânsito pedonal.

Foto de terceiros.

Foto de terceiros. Restaurante entretanto encerrado (2019).

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Em 2009 ainda estávamos longe de ser viajantes experientes. Não tínhamos o hábito de procurar restaurantes especiais, nem conhecíamos verdadeiramente esse universo.
Budapeste foi uma viagem curta, mas muito intencional.
Chegámos no dia 31 de dezembro à tarde e regressámos a Dublin no dia seguinte ao fim da tarde. Atravessámos a Europa para celebrar a passagem de ano com um jantar especial.
Ainda tivemos tempo para passear pela cidade, sentir um pouco da atmosfera de Budapeste e espreitar as famosas Termas Gellért. Mas o verdadeiro motivo da viagem era outro: o jantar.
Escolhemos o Baraka e, pela primeira vez, arriscámos um menu de degustação com harmonização de vinhos.
Tudo era novo. Os pratos, os vinhos, o ritmo do jantar, toda aquela experiência que ainda não fazia parte das nossas viagens habituais.
E foi tudo maravilhoso.
Na hora da conta, porém, a magia da noite encontrou um pequeno obstáculo: os números já começavam a perder o sentido e as conversões de moeda feitas de cabeça pareciam cada vez mais difíceis. Ainda assim, tudo parecia correto. Pagámos, deixámos a gorjeta e preparámo-nos para continuar a noite.
Foi então que reparámos que os funcionários estavam ainda mais atenciosos do que antes. Extremamente prestáveis, disponíveis para ajudar, até fizeram questão de nos chamar um táxi.
Na altura achámos apenas que era simpatia.
Só no dia seguinte, já com a cabeça mais tranquila e as contas refeitas, percebemos a verdadeira razão daquela amabilidade.
A gorjeta tinha sido bastante maior do que pretendíamos.
Um pouco maior.
Talvez tenhamos pago uma pequena fortuna por uma noite memorável. Mas, olhando para trás, há erros que acabam por fazer parte da história.
E este ficou para sempre associado àquela viagem curta, intensa e feita apenas para celebrar uma noite especial.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Estávamos em Stresa, junto ao Lago Maggiore, numa pausa de uma viagem pela Europa.
Era um daqueles momentos simples de viagem: sentados à mesa, a almoçar sem pressa, a aproveitar o ambiente tranquilo de uma cidade italiana junto ao lago.
Foi aí que conhecemos um belga.
A conversa começou naturalmente e, a certa altura, descobrimos que tinha uma ligação especial com Portugal. Gostava do nosso país, conhecia-o e falava dele com um entusiasmo que não esperávamos encontrar tão longe de casa.
É curioso como, por vezes, são estes pequenos encontros que ficam na memória.
Não foi apenas o lugar onde estávamos, nem aquilo que fomos visitar.
Foi uma conversa inesperada com alguém que, vindo de outro país, nos fez sentir um pouco mais perto de casa.
Porque viajar também é isto: perceber que Portugal pode aparecer nos lugares mais improváveis.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Voltámos a Adelboden em 2010.
Desta vez, acompanhados pelos meus pais, numa viagem que juntava a Suíça e Itália.
A chegada não podia ter sido mais diferente da imagem que iríamos encontrar na manhã seguinte.
Era já de madrugada quando chegámos.
Tínhamos passado pelo imprevisto de ficarmos algum tempo presos em Zermatt devido ao encerramento da estrada, e acabámos por chegar tarde, cansados, sem grande oportunidade de apreciar o lugar.
Mas nós já sabíamos o que nos esperava.
Os meus pais, não.
Na manhã seguinte, quando abriram as cortinas, encontraram pela primeira vez aquele cenário que nós já conhecíamos.
As montanhas, a paisagem imponente, a tranquilidade de Adelboden.
A surpresa deles tornou o momento especial para nós.
Às vezes, voltar a um lugar conhecido permite descobri-lo novamente através do olhar de quem o vê pela primeira vez.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Blausee foi o primeiro lago de montanha suíço que visitámos.
O que mais nos impressionou foi a água.
A cor azul parecia diferente de tudo o que conhecíamos e a transparência deixava ver o fundo com uma nitidez invulgar.
Foi também ali que tivemos o primeiro contacto com aquela tonalidade tão característica dos lagos alpinos suíços.
Depois vieram muitos outros.
Mas Blausee foi o primeiro.

Foto de terceiros.

Foto de terceiros.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Há viagens que parecem desenhadas para acumular quilómetros, desvios e histórias.
Esta foi uma delas.
Começou em Bergamo, onde alugámos o carro. Seguimos até Stresa, no Lago Maggiore, para almoçar junto à água. Nesse dia jogava a seleção portuguesa de futebol e aproveitámos para ver o jogo enquanto almoçávamos.
Acabámos por partilhar a experiência com um belga que, curiosamente, era um grande fã da nossa seleção. Uma pequena coincidência que tornou aquele almoço ainda mais especial.
Depois seguimos viagem até Zermatt.
Visitámos a vila alpina e, já ao cair da noite, continuámos em direção a Adelboden, onde iríamos ficar durante alguns dias.
Só que a estrada tinha outros planos.
À saída de Zermatt encontrámos uma barreira fechada. Não podíamos passar. Fomos até à polícia tentar perceber como poderíamos continuar a viagem, mas a resposta foi simples: a estrada estava encerrada até ao dia seguinte.
Voltámos para junto da barreira. Já lá estavam outros carros, outros viajantes igualmente surpreendidos por aquele bloqueio inesperado.
Foi então que uma senhora suíça, no carro atrás de nós, perguntou se tínhamos ferramentas no carro. A intenção era clara: se ninguém resolvia a situação, talvez ela própria resolvesse.
Acabámos por conversar com alguns trabalhadores que estavam por perto e, com alguma boa vontade, abriram a cancela.
Nunca chegámos a perceber exatamente o motivo do encerramento.
Mas percebemos que, numa viagem destas, até uma estrada fechada pode acabar por fazer parte da história.
Continuámos caminho e chegámos a Adelboden já quase de madrugada.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Hallstatt entrou cedo na nossa lista de lugares a conhecer.
A aldeia mais bonita sobre um lago, diziam. Tínhamos até um screensaver com aquela imagem. Um dia iremos lá, repetíamos.
E fomos.
Aliás, fomos várias vezes, já depois de sairmos de Portugal.
A aldeia é, de facto, linda. Daquelas que parecem ter sido desenhadas para um postal: as casas junto à água, as montanhas a fechar a paisagem, o reflexo perfeito no lago.
Durante anos, foi essa a imagem que guardámos. Uma aldeia idílica, quase demasiado perfeita para ser real.
Até vermos um filme em que Hallstatt aparece como ela própria, não apenas como cenário ou imagem de fundo.
A mesma aldeia tranquila, as mesmas ruas, a mesma paisagem — mas associadas a uma história completamente diferente, estranha e inquietante.
Foi curioso, e até um pouco desconfortável, perceber como uma narrativa consegue mudar a forma como olhamos para um lugar.
A partir daí, a imagem da pacata Hallstatt nunca mais foi exactamente a mesma.
Talvez seja essa uma das coisas mais curiosas de viajar: chegamos a um lugar com uma imagem na cabeça e, às vezes, levamos outra completamente diferente.

Foto de terceiros. Desde 2020, o restaurante opera sob o nome "The Metropole Monte-Carlo Restaurant" (mesmo espaço e chef, sem a marca Robuchon).

Foto de terceiros. Restaurante entretanto encerrado.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
O que mais recordamos de Berlim é o frio.
Foi durante aquele inverno em que grande parte da Europa ficou coberta de branco. Um inverno tão intenso que acabou por alterar os nossos planos: o voo para Paris foi cancelado e, em vez de seguirmos o itinerário previsto, acabámos por ir para Berlim.
Até então, nunca tínhamos experimentado temperaturas negativas daquela forma.
Mal saíamos do hotel para conhecer a cidade, o frio apoderava-se de nós em poucos minutos. Deixava de haver espaço para pensar em tudo o resto. A única preocupação passava a ser encontrar um lugar quente onde recuperar.
Era como se o corpo desligasse todas as outras funções e se concentrasse apenas em procurar calor.
Tirar uma fotografia tornava-se um pequeno desafio. Bastavam alguns segundos com as mãos expostas para sentir que estavam a congelar.
Mas há uma imagem que ficou especialmente marcada: o rio parcialmente gelado, com enormes blocos de gelo a descer lentamente pela água.
Berlim ficou assim na nossa memória.
Não apenas pelos seus monumentos ou pela sua história, mas por um inverno que nos mostrou uma intensidade de frio que nunca tínhamos sentido.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Viena impressiona.
A arquitetura imperial, os grandes edifícios e a elegância da cidade fazem perceber rapidamente a sua importância histórica.
Visitámo-la no Natal, numa altura em que os mercados enchiam as ruas de luz e cor, criando uma atmosfera ainda mais especial.
Mas, apesar de tudo isso, Viena não ficou associada a uma grande memória.
O que mais recordamos foi uma sensação.
Não propriamente no hotel, onde a experiência foi normal, mas nos cafés e restaurantes, onde sentimos uma distância e uma falta de simpatia que nos surpreenderam.
Talvez tenha sido apenas a experiência daquela viagem, naquele momento.
Mas foi suficiente para que, ao contrário de muitas outras cidades por onde passámos, nunca tenha surgido vontade de regressar.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Há viagens que começam exatamente como foram planeadas. E há outras que acabam por ser muito melhores precisamente porque tudo corre mal.
A viagem de Natal desse ano tinha um plano simples: começar em Paris, seguir para Berlim, terminar em Viena e regressar a Dublin no dia 24 de dezembro, a tempo da noite de Natal. Era uma viagem com os meus pais, pensada ao detalhe, como tantas vezes fazemos quando queremos que tudo corra bem.
Mas nesse inverno a Europa cobriu-se de branco. Nevões fortes pararam aeroportos por todo o continente, e Paris foi um deles. O nosso primeiro voo foi cancelado e, de repente, toda a sequência da viagem ficou em risco.
Foi então que tivemos uma daquelas pequenas ajudas inesperadas que mudam tudo. Um elemento do staff do aeroporto de Dublin interessou-se pela nossa situação, perguntou-nos qual era o destino seguinte e, quando ouviu “Berlim”, percebeu que havia um voo prestes a partir para lá. Com uma chamada para o capitão, conseguiu colocar-nos nesse avião.
Corremos aeroporto fora. O voo estava quase a sair. Ter apenas bagagem de mão tornou-se, naquele momento, a diferença entre conseguir ou perder a oportunidade.
E assim, em vez de Paris, começámos a viagem em Berlim.
Foi também aí que percebemos o inverno que nos esperava. Nunca tínhamos sentido tanto frio. Ficaram-nos na memória os enormes pedaços de gelo a descer pelo rio e a sensação de ter as mãos a congelar apenas por parar alguns segundos para tirar uma fotografia.
Tudo acabou por se encaixar. O hotel de Paris compreendeu a situação e aceitou o cancelamento em cima da hora. Em Berlim conseguiram receber-nos mais cedo. Visitámos a cidade, seguimos para Viena e, até ao último dia, parecia que a aventura tinha recuperado o rumo.
Até chegar o momento do regresso.
Era véspera de Natal e o aeroporto de Dublin estava encerrado devido à neve. Não havia previsão de reabertura nas horas seguintes. Podíamos esperar por um milagre ou aceitar que aquele regresso não aconteceria como planeado.
Escolhemos não esperar.
Alterámos o voo para dia 26, alugámos um carro e fomos até Praga.
E foi assim que uma cidade que nunca esteve nos planos passou a fazer parte daquela viagem. Tivemos mais dois dias para descobrir uma cidade coberta de inverno, sem pressa e sem expectativas, com tudo inesperadamente pago pela companhia aérea.
Às vezes, os melhores desvios são aqueles que não escolhemos.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Singapura surpreendeu-nos pelos contrastes.
O skyline é magnífico. A mistura entre os arranha-céus modernos e os antigos edifícios coloniais dá à cidade uma personalidade quase única.
O contorno da água, as luzes refletidas e os edifícios espelhados criam uma imagem difícil de esquecer.
Mas o que mais nos surpreendeu foi perceber que, no meio de toda aquela modernidade, existiam também marcas de outras culturas e outras épocas.
Encontrar templos hindus no coração de uma cidade tão futurista era algo que não esperávamos.
Era como se diferentes mundos coexistissem no mesmo espaço.
Outra memória ficou de uma estadia no hotel.
Do quarto, com janelas de vidro do chão ao teto, assistimos a uma parada militar.
Nunca percebemos exatamente a razão daquele desfile, mas a dimensão impressionava. A presença dos tanques e a escala da operação eram algo que dificilmente se esperaria encontrar no meio de uma cidade tão moderna.
Singapura ficou assim na nossa memória: uma cidade onde o futuro, a história e diferentes culturas convivem lado a lado.

Foto de terceiros. Restaurante encerrado permanentemente em junho de 2018.

Foto de terceiros.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
O que mais recordamos da Sardenha não foi uma praia, uma paisagem ou uma estrada.
Foi um susto.
Íamos de carro a explorar a ilha quando, de repente, o Paulo levou a mão ao peito e encostou o carro.
Durante alguns segundos, o meu pensamento foi imediato: estava a ter um ataque cardíaco.
A preocupação foi substituída rapidamente pela explicação mais improvável.
Não era o coração.
Era uma abelha.
De alguma forma, tinha conseguido picá-lo no mamilo através da camisola.
O alívio veio acompanhado de uma gargalhada.
No meio de uma viagem pela Sardenha, entre estradas costeiras e paisagens mediterrânicas, a memória que ficou foi afinal a de uma abelha com um timing perfeito.

Foto de terceiros.

Foto de terceiros. O restaurante do hotel foi entretanto reformulado sob o nome "Otto Geleng" (distinção Michelin desde 2020).

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Amsterdam foi apenas uma daytrip.
Decidimos tornar o dia um pouco diferente e contratámos um serviço de limousine para nos levar pela cidade.
Almoçámos no restaurante do Hotel De L’Europe, numa altura em que ainda estávamos a descobrir o mundo da alta gastronomia.
Não éramos especialistas em fine dining.
Estávamos ainda naquela fase em que cada detalhe era uma descoberta.
E foi precisamente uma sobremesa que ficou na memória.
Trouxeram-nos uma esfera perfeita de chocolate.
À primeira vista parecia apenas uma peça cuidadosamente criada, quase demasiado bonita para ser comida.
Depois, à nossa frente, o funcionário deitou um molho quente por cima.
Lentamente, o chocolate começou a derreter e a esfera abriu-se em forma de flor, revelando o que estava escondido no interior.
Ficámos maravilhados.
Era como assistir a um pequeno momento de magia a acontecer mesmo à nossa frente.
Hoje já conhecemos melhor este universo, mas aquele instante ficou como uma das primeiras vezes em que percebemos que a gastronomia podia ser muito mais do que comer.
Podia ser uma experiência.

Foto de terceiros. Restaurante entretanto encerrado (2018).

Imagem ilustrativa gerada por IA.
O Gorges du Verdon é um daqueles lugares que impressionam logo à chegada.
O desfiladeiro é imponente, as montanhas enormes, e o cenário vale por si só a viagem.
Mas o Verdon é mais do que montanhas.
Lá em baixo corre um rio de uma água turquesa quase inacreditável.
Fomos com os meus pais e decidimos aproveitar também essa parte do cenário. Alugámos uma gaivota para quatro e lançámo-nos rio adentro.
O Paulo, naturalmente, aproveitou para dar um mergulho.
Continuámos a navegar tranquilamente, os quatro a desfrutar da paisagem.
Até que, a certa altura, percebemos uma coisa.
Só o Paulo estava a pedalar.
Nós os três estávamos muito ocupados a contemplar o Verdon.
Foi então que percebemos que a divisão de tarefas daquela gaivota não estava exactamente a ser democrática.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
A primeira impressão é a grandiosidade. A segunda é a beleza. No fim da visita, é difícil saber qual delas venceu.
Visitámo-la de dia, antes de seguirmos para o deserto. Talvez por isso a memória tenha ficado tão branca.
A Sheikh Zayed Grand Mosque parece feita de luz. O mármore branco reflecte o sol de tal maneira que quase custa acreditar que um edifício possa ser tão luminoso.
À entrada, deixámos os sapatos e eu tive de vestir uma longa veste preta que me cobria da cabeça aos pés. Faz parte da visita e, poucos minutos depois, já nem dávamos por ela. O lugar absorvia toda a atenção.
Há riqueza por todo o lado, talvez até em excesso. Mas o branco do mármore, a delicadeza dos desenhos incrustados na pedra e a luz que atravessa todo o edifício conseguem transformar a opulência em beleza.
As colunas trabalhadas e os enormes lustres de cristal completam um conjunto que impressiona sem nunca parecer pesado.
Já visitámos muitos edifícios impressionantes pelo mundo. Poucos, porém, nos pareceram tão elegantes.
A Sheikh Zayed Grand Mosque é enorme, riquíssima e incrivelmente bela.
E, no entanto, nada parece estar a mais.
Tudo parece exactamente onde devia estar.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
A história de amor entre Pedro I de Portugal e Inês de Castro é feita de paixão, intriga e morte — e inspirou séculos de poetas e artistas.
Pedro, mais tarde "o Justiceiro", era filho do rei Afonso IV de Portugal. Ainda jovem, foi casado por conveniência política com Constança Manuel de Vilena. Diz-se que Pedro considerou a esposa adequada — até conhecer, minutos depois, a sua prima e dama de companhia, a aristocrata castelhana Inês de Castro, de cabelos dourados e olhos azuis. Apaixonaram-se quase de imediato.
O romance escandalizou a corte. Constança chegou a fazer de Inês madrinha do seu filho Luís, numa manobra calculada: segundo a Igreja, um padrinho tornava-se membro da família, o que conferia à ligação um carácter incestuoso e a deveria tornar impossível. Nem isso demoveu os amantes. Perante a recusa de Pedro em terminar tudo, o rei Afonso IV afastou Inês para um convento em Coimbra — mas os dois continuaram a encontrar-se em segredo. Em 1345, Constança morreu ao dar à luz o futuro Fernando I, e Pedro passou a viver com Inês como se fossem casados, tendo vários filhos ao longo dos anos.
Algum tempo após a morte de D. Constança, Afonso IV pressionava o filho a casar novamente, procurando garantir mais herdeiros. Mas Pedro não aceitava qualquer casamento. Era Inês ou ninguém.
A ligação entre os dois continuava a inquietar a corte. A família de Inês tinha ligações poderosas em Castela e temia-se que os seus filhos pudessem disputar o trono aos herdeiros legítimos. Pressionado pelos conselheiros, Afonso IV acabou por ordenar a morte de Inês.
Em 1355, aproveitando uma ausência de Pedro, três homens — Pêro Coelho, Álvaro Gonçalves e Diogo Lopes Pacheco — mataram-na à espada na Quinta das Lágrimas, em Coimbra.
A dor transformou-se em revolta contra o próprio pai. Só em 1357, já rei, Pedro pôde finalmente capturar dois dos assassinos — o terceiro escapara para Castela — e mandou executá-los de forma brutal: arrancaram-lhes o coração, um pelo peito, o outro pelas costas, dizem as crónicas que enquanto o próprio rei assistia. Pedro declarou então que casara secretamente com Inês, tornando-a, por direito, rainha póstuma de Portugal.
Reza a lenda que mandou exumar o corpo da amada, coroá-lo e sentá-lo num trono, obrigando a corte a beijar a mão da rainha morta. O que a história confirma é a trasladação de Inês para o Mosteiro de Alcobaça, onde Pedro ergueu dois túmulos frente a frente — para que, no fim, pudesse repousar para sempre ao lado do seu eterno amor.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Imaginem uma pedreira antiga, escavada na pedra branca da Provença, com paredes de vários andares de altura.
Agora imaginem essas paredes cobertas de arte em movimento — quadros gigantes que se acendem, respiram e mudam ao som da música, do chão ao teto, à nossa volta e por baixo dos nossos pés.
É isto a Carrière des Lumières.
Da primeira vez, ficámos sem chão.
Não se olha para a arte à distância, como num museu. Está-se dentro dela.
Vimos Van Gogh: os amarelos a inundar a pedra, os céus estrelados a rodopiar por cima de nós, os girassóis e os campos de trigo a mover-se ao som da música, aquela pincelada inquieta a ganhar vida à nossa volta.
É uma forma completamente diferente de ver pintura — e talvez a mais emocionante que conhecemos.
Voltámos várias vezes, a cada nova exposição, e nunca perdeu a magia.
De todos os lugares que este site guarda, é um dos poucos a que faríamos quilómetros só para voltar a ver.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Tínhamos imaginado a Dordogne como o cenário perfeito para explorar de carro. Estradas pequenas e sinuosas, aldeias de pedra, castelos escondidos entre a paisagem verde.
Quando encontrámos um Peugeot RCZ para alugar a um preço excelente, pareceu-nos a escolha ideal. Um pequeno carro desportivo para aproveitar aquelas estradas com curvas e tornar a viagem ainda mais divertida.
Mas, ao chegar ao rent-a-car, surgiu a primeira surpresa.
O seguro custava mais por dia do que o próprio aluguer do carro. Até o funcionário parecia admirado e sem perceber muito bem aquela lógica. No fim, não havia grande alternativa: tivemos de desistir do RCZ.
Como solução, conseguiu arranjar-nos um Mercedes Classe E a um preço muito interessante.
A ideia de conduzir um carro daquela gama pareceu-nos bastante apelativa. Conforto, espaço e elegância.
Só que havia um pequeno problema: as estradas da Dordogne não tinham sido feitas a pensar num Mercedes Classe E.
O que parecia uma vantagem transformou-se rapidamente numa pequena aventura. Nas estradas estreitas do campo, entre muros e curvas apertadas, aquele carro parecia uma verdadeira banheira de luxo a tentar navegar por caminhos onde o pequeno RCZ teria sido muito mais apropriado.
Até que chegou uma dessas curvas impossíveis.
Uma roulotte vinha no sentido contrário, a estrada não tinha espaço para os dois e, apesar das tentativas de evitar o inevitável, aconteceu.
Um pequeno toque. Uma raspadela.
Saímos do carro já a imaginar a dor de cabeça que vinha a seguir. Seguros, explicações, problemas.
Mas a realidade foi completamente diferente.
Os ocupantes da roulotte eram um casal irlandês reformado. Em vez de irritação, encontrámos simpatia. Começámos a conversar e, no meio da troca de histórias, descobrimos um daqueles acasos improváveis: também eles tinham uma ligação a Dublin. Nós próprios éramos vizinhos do irmão do senhor, que, tal como nós, vivia em Sandyford.
Aquela pequena colisão, que parecia ser o momento que iria estragar o dia, acabou por ser precisamente o contrário.
Transformou-se numa conversa inesperada, numa memória divertida e numa daquelas pequenas interações que fazem uma viagem ser mais do que apenas lugares visitados.
No fim, talvez o Mercedes não tenha sido o carro ideal para as estradas da Dordogne.
Mas acabou por nos levar ao encontro certo.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Eu não sei nadar.
E a água, sobretudo quando é escura e fria, sempre me causou algum respeito.
Mesmo assim, decidimos alugar uma canoa para dois e descer o Dordogne.
Era a nossa primeira vez numa experiência assim e, mal nos afastámos da doca, ainda a tentar perceber como duas pessoas conseguiam remar na mesma direcção, ouvimos o senhor que nos tinha alugado a canoa gritar:
— «Pagayez! Pagayez!»
Não percebíamos exactamente a palavra, mas percebemos a mensagem: era preciso remar com mais energia.
E lá fomos nós rio abaixo.
A paisagem era tudo aquilo que esperávamos: as aldeias aninhadas nas margens, os castelos a surgir entre a vegetação e a corrente tranquila a levar-nos lentamente.
Mas, enquanto admirava tudo aquilo, uma parte de mim continuava preocupada.
E se a canoa virasse?
E se eu caísse naquela água fria e escura?
Até que, de repente, aconteceu aquilo que menos esperávamos.
A canoa parou.
No meio de todos os meus receios, percebemos que estávamos simplesmente encalhados num banco de areia.
Foi nesse momento que descobrimos que o Dordogne, em muitos pontos, era muito menos profundo do que a nossa imaginação fazia parecer.
O colete salvava-vidas garantia a nossa segurança e o maior perigo daquela aventura tinha estado sempre apenas na minha cabeça.
Continuámos a descer o rio muito mais tranquilos, deixando finalmente que a paisagem ocupasse o lugar principal.
No fim, o que ficou não foi apenas o rio ou os castelos nas margens.
Foi a descoberta de que, às vezes, o medo é muito maior na nossa cabeça do que na realidade.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
O Art Déco sempre nos falou. É o estilo da nossa casa, da nossa maneira de ver a beleza. Por isso, quando entrámos no Imperial, em Praga, percebemos imediatamente que aquele hotel era mais do que um lugar onde íamos dormir.
Os mosaicos, os relevos dourados, as colunas, a luz — tudo parece desenhado para ser admirado. Entrava-se ali e mais parecia um museu do que um hotel, uma galeria onde, por acaso, também se podia passar a noite.
Ficámos ali com Praga gelada lá fora e todo aquele esplendor cá dentro.
Mas a memória mais curiosa daquele hotel chegou anos depois. Ao vermos O Ilusionista, reconhecemos de repente aqueles interiores. O elegante hotel do filme era o nosso Imperial — só que, no ecrã, fingia ser Viena. Reconhecer um lugar nosso num filme, sem estar à procura dele, foi uma daquelas pequenas surpresas que tornam uma viagem ainda mais nossa.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Todos os anos, milhares de pessoas vão a Verona para ver a varanda de Julieta. Deixam cartas nas paredes, tocam na estátua para dar sorte, juram que ali viveu o maior amor de todos os tempos.
Só que Julieta nunca existiu.
É uma personagem de Shakespeare, e a história que a tornou imortal dura quatro dias e acaba com dois adolescentes mortos por um mal-entendido. Como grande história de amor, confesso que me convence pouco. Foi curta. E foi ficção.
Fico mais impressionada com o que é preciso para uma invenção literária ganhar morada, varanda e peregrinos séculos depois.
Isso, sim, é notável: a prova de que uma boa história não precisa de ter acontecido para se tornar mais real do que muitas que aconteceram.
Curiosamente, no extremo ocidental da Europa, num mosteiro português, repousam duas pessoas que se amaram de verdade.
Pedro e Inês não são uma lenda nem uma invenção literária. A sua história atravessou a vida, a morte e os séculos.
Para mim, se há uma verdadeira história de amor, é essa.
Talvez por isso, quando penso em verdadeiras histórias de amor, a minha viagem não termine em Verona.
Termine em Alcobaça.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
O excesso pode cair para dois lados: o brega e o deslumbrante.
O Cavalli Club, no Dubai, ficava claramente no segundo — e a diferença estava toda no gosto.
Era tudo a mais, à maneira de Roberto Cavalli: milhares de cristais Swarovski, estampados de animal, brilho por todo o lado. Feito por outra mão, seria facilmente de mau gosto. Ali não. Havia uma elegância por baixo do excesso que o segurava.
O que nos ficou foram os cristais suspensos do teto, cascatas de luz a cair sobre a sala inteira. Ficámos a olhar para cima mais tempo do que seria razoável.
Não era o género de sítio onde nos víssemos a voltar habitualmente. Mas fazia sentido conhecê-lo no Dubai: era o luxo levado ao limite, sem cair para o lado errado.
Lembro-me sobretudo da nossa chegada.
Ainda estávamos a descobrir os códigos daquele mundo quando, naturalmente, entregámos o casaco à jovem francesa que nos acompanhou até à mesa.
Ela hesitou por alguns instantes, claramente surpreendida, mas acabou por levá-lo.
Hoje sorrimos ao lembrar essa noite.
Não apenas pelo excesso do espaço, mas por aquela pequena hesitação que nos revelou que estávamos a entrar, pela primeira vez, num universo com regras próprias.
E nós ainda estávamos a aprendê-las.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Toda a gente quer subir à Torre Eiffel. Nós preferimos subir à Torre Montparnasse — e não é distração.
Quando queremos ver uma cidade de cima, gostamos de a ver inteira. E, no caso de Paris, isso significa poder ter a Torre Eiffel dentro da paisagem.
Da Torre Eiffel enfrenta-se a fama: multidões, esperas e a ironia de que, lá em cima, a única coisa que não se vê é a própria Torre Eiffel.
Do Montparnasse é ao contrário. Sobe-se num instante, sem multidões, e temos Paris inteira aos pés, com a Torre Eiffel plantada no meio da vista, exactamente onde deve estar.
Em menos de 50 segundos de elevador, lá está ela: do Sacré-Cœur à Défense, Paris inteira diante de nós.
Voltámos lá mais do que uma vez, sempre pela mesma razão.
Gostamos mais de olhar para a Torre Eiffel do que de estar dentro dela.
Talvez seja essa a nossa maneira de viajar: quando um lugar tem um símbolo tão forte, às vezes preferimos vê-lo de fora, integrado na paisagem que lhe pertence.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Na maioria dos miradouros, vê-se o marco da cidade à distância.
Neste, o marco somos nós.
O SkyPark é aquela prancha suspensa sobre as três torres do Marina Bay Sands, o edifício que é a imagem de Singapura. Subir lá acima é quase como entrar dentro do próprio postal.
E a vista faz jus.
A skyline de Singapura tem uma coisa que poucas têm: a mistura dos arranha-céus de vidro com os edifícios coloniais, o futuro e o passado no mesmo horizonte, lado a lado sem pedir licença.
Jantámos no Joël Robuchon e subimos depois ao chocolate bar no topo. Ficámos ali simplesmente a olhar a cidade a acender-se.
A famosa piscina infinita é só para hóspedes do hotel. Não entrámos.
Ou melhor: o Paulo, distraído a fotografar, acabou com os pés dentro de água nos degraus, sem dar por isso.
Foi o mais perto que estivemos de nadar na piscina mais fotografada do mundo.
Fica para a próxima.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Entra-se e fica-se pequeno — a escala, o mármore, a luz, tudo parece pensado para lembrar ao visitante a sua própria dimensão.
Reparámos até, a rir, que o mármore vermelho que reveste a basílica era igualzinho ao da casa de banho da nossa suíte: o sublime e o doméstico a darem as mãos.
E depois veio a Capela Sistina.
Sobre esta, serei honesta.
Crescemos a ver os frescos de Miguel Ângelo um a um, isolados, cada cena no seu tempo e no seu contexto. Vê-los todos juntos, do chão ao teto, a cobrir cada centímetro, foi inesperado.
Mais parece um armazém de obras-primas do que um lugar para as contemplar.
São geniais, cada uma delas. Mas todas ao mesmo tempo, empilhadas até ao céu, é quase a mais.
Saí de lá deslumbrada e um pouco atordoada — ainda sem saber se essa mistura de emoções era parte do efeito pretendido.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Fomos à Quinta da Regaleira sem saber muito bem o que esperar.
E depressa percebemos que ali não se visita apenas um palácio ou um jardim. Anda-se de descoberta em descoberta.
Um caminho desaparece entre a vegetação, uma torre surge por cima das árvores, uma passagem leva a outra e, de repente, estamos a descer por dentro da terra.
O poço em espiral não serve para tirar água. Serve para descer.
Lá em baixo, os túneis continuam pela escuridão e levam-nos até outro ponto do jardim, como se tivéssemos atravessado para outro lugar.
A vegetação cresce sobre a pedra, as construções parecem esconder-se umas das outras e nunca sabemos muito bem o que vamos encontrar a seguir.
Foi isso que nos ficou da Regaleira.
A sensação de estar a percorrer um lugar que alguém construiu para ser descoberto.
Não como um jardim.
Como um enigma.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Antes de o vermos pela primeira vez, Neuschwanstein já fazia parte das nossas memórias.
Crescemos com ele sem saber — na abertura dos filmes, nas capas dos livros de contos de fadas, naquele lugar da infância onde moram as princesas e os finais felizes.
Julgávamo-lo inventado.
E depois, um dia, aparece ao fundo da floresta bávara: torres brancas contra o verde, exactamente como na memória.
O curioso é que a imagem que tínhamos na cabeça não nasceu na Disney. O castelo veio primeiro.
Foi Ludwig II, um rei que fugia do mundo para dentro das óperas de Wagner, quem quis construir o seu próprio cenário de conto de fadas. A Disney apenas encontrou ali uma imagem que já parecia saída de uma história inventada.
Fica o espanto de descobrir que um sonho de infância tinha morada certa.
E que a morada existe mesmo, de pedra, diante dos nossos olhos.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Toda a gente conhece a Maya Bay, mesmo sem saber o nome — é a praia de The Beach, aquela enseada de água esmeralda fechada por falésias que o filme com o DiCaprio tornou mítica.
Fomos até lá de barco, mas o mar estava agitado e a entrada normal, pela frente, era impossível.
Foi então que os guias propuseram outra coisa: parar o barco, entrar na água e chegar à baía a nado, por trás das rochas — exactamente como acontece no filme.
Eu fiquei no barco à espera.
Não sei nadar, por isso foi o Paulo quem teve a oportunidade de se atirar à aventura.
Vi-o mergulhar e desaparecer por detrás da falésia, a caminho de uma praia que, naquele momento, estava vazia — algo quase impossível num dos lugares mais fotografados do mundo.
Voltou a dizer que tinha sido mágico: entrar por trás, como no filme, e encontrar a baía inteira só para si.
Eu não pude estar lá com ele.
Mas ouvi-o contar.
E, por instantes, foi quase como ter ido também.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
A partir de Phuket fizemos alguns passeios de barco.
Num deles, num grupo pequeno, fomos conhecer alguns dos lugares mais conhecidos da região: os mangais, a James Bond Island e Koh Panyee, uma pequena aldeia piscatória construída sobre a água e famosa pelo seu campo de futebol flutuante.
Almoçámos por lá e, quando regressávamos ao barco, algumas crianças locais repararam na camisola do Real Madrid que o Paulo levava vestida.
Ficaram entusiasmadas.
E, sem grandes rodeios, pediram-lha.
Provavelmente não esperavam que ele aceitasse.
Mas o Paulo tirou a camisola e deu-lha.
E lá ficou, de tronco nu, pronto para regressar ao barco.
Felizmente, um senhor australiano que fazia parte do pequeno grupo tinha levado uma T-shirt extra e teve a gentileza de lha emprestar.
Para nós, aquela camisola era apenas um capricho.
Para aquelas crianças, era uma coisa que dificilmente poderiam ter.
E naquele momento percebemos que aquilo que para uns é banal pode, para outros, ser um pequeno luxo.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Treze anos de casados pediam uma celebração à altura, escolhida a dois e sem outro pretexto além do calendário.
Escolhemos o Savoy.
O Thames Foyer, com a sua cúpula de vidro a deixar entrar a luz de Londres, o piano ao fundo, o tinir discreto da prata na porcelana. O afternoon tea é um ritual sério por ali — mais de trinta chás, scones com clotted cream, sanduíches, doces alinhados como pequenas obras.
Nessa mesma viagem fomos ao teatro ver O Fantasma da Ópera, e o dia inteiro teve esse tom: elegante, sem pressa, celebração pura.
Mas a verdade é que o cenário, por mais bonito que fosse, era só o cenário.
O que ali celebrávamos não estava na mesa nem no palco.
Estava do outro lado deles.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Foi em Portofino que alugámos um barco pela primeira vez.
E mudou a nossa maneira de estar à beira-mar.
Há uma diferença enorme entre ver o mar da praia e vê-lo do mar.
Na praia há a areia, as pessoas à volta, o espaço limitado. No barco há o contrário de tudo isso: o silêncio, a água a toda a volta, a costa a passar devagar e a liberdade de parar onde nos apetece.
Uma enseada só nossa. Um mergulho longe de tudo. O mar sem mais ninguém.
Portofino, com as suas casas cor de gelado empilhadas sobre a água, era ainda mais bonita vista de fora, do lado do mar.
Foi a primeira de muitas.
A partir dali, sempre que pudemos, foi assim que quisemos conhecer o mar: de dentro dele.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Vivemos anos em Lisboa e, nessa altura, havia uma coisa que nos parecia indiscutível: se queríamos comer um verdadeiro pastel de nata, íamos aos Pastéis de Belém.
Era o original.
A receita guardada a sete chaves, a massa estaladiça, o creme quente. E, durante muito tempo, a sensação era mesmo essa: podia haver pastéis de nata por todo o lado, mas nenhum era exactamente aquele.
Conhecíamos bem o lugar e voltámos lá várias vezes.
A experiência, porém, nunca foi propriamente tranquila. A casa é ruidosa, está quase sempre cheia e o atendimento é feito a um ritmo que pouco convida a ficar.
Na altura, aceitávamos isso porque o pastel compensava.
Hoje já não temos a mesma opinião.
A pastelaria mudou, apareceram alternativas excelentes e há lugares onde se come um pastel de nata tão bom ou melhor, com muito mais calma e um atendimento muito mais agradável.
Mas há uma coisa que não mudou:
o original continua a ser o original.
E, tendo vivido anos em Lisboa, achamos que valeu a pena conhecê-lo quando ainda era muito mais difícil dizer que havia alternativas à altura.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Foi a viagem dos nossos quinze anos, e o destino eram as Maldivas.
O deserto era apenas uma paragem pelo caminho.
Estávamos a duzentos quilómetros da cidade mais próxima, dentro do Empty Quarter — o maior deserto de areia do mundo. Um lugar onde não há praticamente nada e é precisamente esse o ponto.
As dunas estendiam-se até onde a vista alcançava. Ao fim do dia, a areia mudava de cor com a luz e, quando a noite chegou, o céu parecia ainda maior.
Havia um silêncio absoluto.
Nada acontecia.
E era exactamente isso que tornava tudo tão extraordinário.
As Maldivas foram espectaculares, como esperávamos. Mas, quando pensamos naquela viagem, é o deserto que nos volta primeiro à memória.
O destino estava no oceano.
A surpresa estava na areia.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Tudo começou com uma emergência.
Em 1832, o príncipe Metternich pediu à sua cozinha uma sobremesa memorável para uma ocasião especial, com uma exigência simples: que não o envergonhasse naquela noite.
O chef adoeceu e a responsabilidade caiu sobre Franz Sacher, um aprendiz de apenas dezasseis anos. O jovem criou um bolo denso de chocolate, com doce de alperce e cobertura de chocolate amargo, que acabaria por entrar para a história.
Quase dois séculos depois, a receita continua guardada a sete chaves e a Sacher-Torte continua a ser servida da mesma forma: acompanhada por uma generosa porção de chantilly sem açúcar, pensado para equilibrar a intensidade do chocolate.
Fizemos tudo como manda a tradição: entrámos num Hotel Sacher e provámo-la em Salzburgo, longe do lugar onde a história começou, mas ainda dentro da tradição que a tornou famosa.
E dizemo-lo com todo o respeito pela história:
É um bolo de chocolate seco. Sem graça.
Passámos o resto do dia a tentar perceber onde estava o encanto que o mundo inteiro parece sentir — e concluímos que talvez estivesse mais na história do que no prato.
O que não deixa de ser apropriado.
Às vezes, a lenda sabe melhor do que a sobremesa.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Fomos duas vezes ao West End. Esta foi a noite que ficou.
Les Misérables é daquelas obras em que tudo se junta e nada sobra.
A música, que se cola à memória e não sai — daquelas canções que uma pessoa sai a cantarolar sem dar conta.
O cenário, que se transforma diante dos olhos e nos põe dentro da Paris revolucionária.
E, por baixo de tudo, a história: a redenção, a justiça, o sacrifício, gente pequena a lutar por dignidade num mundo que lha nega.
Épica no palco e épica no que conta.
Saímos dali em silêncio, do género de silêncio que só vem depois de uma coisa grande.
Foi uma das melhores noites que Londres nos deu.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Há coisas que não se esquecem.
A primeira vez que se vêem os Alpes é uma delas.
Íamos de carro para Lauterbrunnen, por aquelas estradas estreitas de montanha que sobem sem deixar perceber o que existe do outro lado.
E então, depois de uma curva, apareceu.
Uma muralha imensa de montanha, inteira, diante de nós, sem aviso.
Parámos o carro ali mesmo.
Sem palavras.
A sensação era quase impossível de explicar. Uma mistura de surpresa, emoção e incredulidade perante uma paisagem que parecia demasiado perfeita para ser real.
Foi a primeira vez que percebemos que há lugares que conseguem ser ainda mais impressionantes ao vivo do que na nossa imaginação.
O vale de Lauterbrunnen viria a tornar-se um dos lugares a que mais voltámos.
E talvez essa seja a melhor prova do que sentimos naquele primeiro momento: tantas visitas depois, continuamos a olhar para aquelas montanhas com o mesmo deslumbre.
Há paisagens que se conhecem.
E há paisagens que nunca se deixam conhecer totalmente.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Vou confessar uma coisa: não gosto de macarons.
Gosto dos da Ladurée — que é outra coisa completamente diferente.
E, curiosamente, quase nunca os comemos em Paris.
Descobrimo-los em Dublin, sem estar à espera. Depois vivemos sete anos em Genebra, onde havia três Ladurée — a do Four Seasons era de uma beleza à parte — e foi lá que se tornaram um hábito.
O macaron mais parisiense do mundo acompanhou-nos por todo o lado menos, curiosamente, na cidade que lhe deu o nome.
À casa-mãe, em Paris, acabámos por chegar mais tarde: as caixas verde-água, as prateleiras que parecem uma paleta de cores, o ritual de escolher um a um como quem escolhe joias.
Provei muitos sabores ao longo dos anos, mas há dois que ficaram: pistácio e framboesa.
E, no fundo, o que os torna inesquecíveis nem é bem o sabor.
É a textura.
Aquele desfazer-se na boca, delicado e exacto, que mais nenhum macaron consegue imitar.
Um da Ladurée não se come apenas.
Celebra-se.
E depois de os provar, os outros passam a saber a imitação.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Há paisagens que não se atravessam por acaso — vai-se até elas. Fomos à Provença em julho, no auge, só para ver os campos de lavanda no seu esplendor. E estavam: o roxo até ao horizonte, o cheiro que se cola à roupa, aquele zumbir baixo de abelhas que é o som do verão.
O que ficou, mais do que a extensão das flores, foi a abadia de Sénanque no meio delas. A pedra nua e severa dos monges cercada por todo aquele perfume e cor — o despojamento e a abundância, lado a lado. Foi curto. Foi bonito. Às vezes é só isso, e chega.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Chegámos tarde, sem reserva, com a cozinha já a fechar. Num sítio qualquer, teria sido um "não". No Villa d'Este, não. Desenrascaram alguma coisa fora do menu, sem uma sombra de má vontade, e serviram-na como se fôssemos esperados desde sempre.
E foi isso, mais do que o prato, que ficou. Aquela villa de 1568 à beira do Lago de Como não serve só comida — serve outro tempo. O ritmo abranda, a elegância é de uma época que já não existe, e por umas horas parece que viajámos para trás, para um mundo mais vagaroso e mais bem-educado. A verdadeira alta hospitalidade não se mede quando tudo corre bem. Mede-se quando chegamos tarde e sem reserva — e ainda assim nos fazem sentir em casa.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
O Splendido, empoleirado nas colinas sobre a baía de Portofino, não se lembra pelo prato. Lembra-se pelo ar que se respirava: a vista sobre o mar e, sobretudo, o aroma a jasmim que envolvia tudo, tão presente que quase se provava.
E um detalhe que nos transportou a outra época: os menus, ilustrados à mão com aguarelas, chegavam sem preços para as senhoras. Hoje pode soar antiquado, até questionável — mas ali, naquele antigo mosteiro do século XVI transformado em refúgio de elegância, era só mais um gesto de um mundo mais cerimonioso, onde certas formas ainda tinham lugar. Não se vai ao Splendido só para comer. Vai-se para respirar um tempo que quase desapareceu.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
A poucos passos dos Champs-Élysées, o George V anuncia-se antes de se entrar — um porteiro de chapéu alto abre a porta, e no instante em que ela se fecha o bulício da cidade fica para trás. Entra-se noutra realidade.
O que primeiro nos toma são os pulmões: um aroma a flores recém-cortadas invade tudo. Há jarrões enormes por todo o lado, arranjos que parecem esculturas. Dizem que o hotel gasta milhares por dia em flores — um disparate de primeiro mundo, dirá quem quiser. Mas foi esse aroma que ficou colado à memória mais de dez anos depois. As flores murcham; a recordação não.
E depois os gestos. Levantei-me à procura da casa de banho e, sem eu perguntar nada, o chefe de sala aproximou-se e fez sinal para o seguir — nem uma palavra, apenas conduzir-me até à porta certa. Lá dentro, uma senhora limpava o cubículo a cada utilização (muito antes de a pandemia tornar isso normal — até hoje não sei se achei encantador se inquietante). Tudo era antecipação: o desejo adivinhado antes de ser dito.
O Four Seasons George V é o que todos os outros hotéis querem ser quando crescerem. E ensinou-nos uma coisa sobre o luxo verdadeiro: não está no preço do prato, está no aroma que nos espera à porta e no gesto que não precisámos de pedir.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
O Raffles Dubai não se confundia com nada.
Uma pirâmide de vidro e pedra, inconfundível no horizonte da cidade, tão marcante que dispensava apresentações.
Foi também nesta viagem que tivemos o nosso primeiro contacto com um universo de luxo que ainda estávamos a descobrir.
Ficámos numa Signature Suite — a categoria base do hotel, que na altura sabíamos ser apenas isso, mas que para nós já representava um upgrade extraordinário.
Era uma nova escala.
Um espaço onde tudo parecia pensado para impressionar, onde o conforto deixava de ser apenas uma questão prática e passava a fazer parte da experiência.
Lá fora, o Dubai tinha o calor do deserto. Lá dentro, até a piscina tinha direito a um capricho: era arrefecida.
Na Europa, aquecer uma piscina já é um luxo. No Raffles, o problema era precisamente o contrário. Era preciso arrefecer a água para que o calor do deserto não a transformasse numa sopa.
Havia ainda um relógio de água: jatos que marcavam as horas, um mecanismo tão bonito quanto inútil — exactamente o tipo de excesso que o Dubai sabe fazer com estilo.
Hoje, esses detalhes fazem-nos sorrir.
Na altura, impressionavam-nos genuinamente.
Estávamos a descobrir um mundo em que aquilo que para nós já parecia extraordinário era apenas o ponto de partida.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
O Burj Al Arab nasceu para ser excesso. A vela de vidro que se tornou símbolo do Dubai, o luxo levado ao limite, a promessa de uma experiência que começa antes mesmo de entrar.
O Al Mahara estava no centro dessa promessa.
Foi uma das nossas primeiras experiências de fine dining e fizemos questão de que a noite fosse uma experiência completa. Na altura, alugámos o serviço de limousine do hotel — não o Rolls-Royce, que era demasiado para a nossa bolsa, mas o BMW 7. Já era, para nós, parte da magia.
A chegada ao restaurante fazia o resto.
Desce-se de elevador, atravessa-se um túnel e, por alguns instantes, a sensação é de estar a entrar num submarino.
É uma ilusão perfeita. Na realidade, não se desce debaixo de água nenhuma. Mas pouco importa. A arquitetura consegue convencer-nos durante aqueles primeiros momentos.
E depois aparece o motivo de tudo: um aquário gigante ocupa o centro do restaurante, com as mesas dispostas à sua volta. Janta-se rodeado de peixes a deslizar em silêncio, como se o oceano tivesse decidido ficar por dentro.
Ficámos impressionados.
Era excessivo? Sim. Mas era exactamente essa a intenção. O Al Mahara não procurava ser discreto. Procurava criar uma memória.
Para equilibrar a conta, bebemos mocktails em vez de cocktails.
Ainda assim, houve um momento que ficou gravado: foi a primeira vez que nos serviram uma sobremesa com ouro.
Já de regresso a Dublin, quando contámos o jantar e o valor da experiência, a reação veio em tom crítico:
— Que comeram, ouro?
A resposta foi simples:
— Sim.
E era verdade.
Ainda hoje sorrimos ao lembrar aquela noite: uma das primeiras vezes em que percebemos que uma refeição podia ser muito mais do que comida.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
O New York Palace é daqueles edifícios que impressionam antes mesmo de percebermos que é um hotel.
Um palácio de 1894, com um café no rés-do-chão que rivaliza com qualquer catedral em ornamento.
Tetos altíssimos, dourados por todo o lado, candeeiros que parecem joias. Ficar ali foi, por si só, um deslumbre.
Mas o melhor prova-se com o tempo.
Numa viagem seguinte a Budapeste, já a ficar num Airbnb, fomos de propósito apenas para tomar o pequeno-almoço ali outra vez.
Não precisávamos do hotel para voltar.
O café bastava-se a si mesmo.
E talvez seja essa a melhor prova de que um lugar realmente nos ficou na memória: voltámos a ele sem precisarmos de qualquer outra razão.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Taormina tem dois Belmond, um na praia e outro na cidade, e ficar num dá acesso ao outro — por isso desfrutámos dos dois. Em outubro, o mar já só ia aos 23 ou 24 graus, nada mau, mas menos convidativo do que as piscinas exteriores, aquecidas a 31 — e foi ali que passámos as tardes mais felizes, entre uma e outra.
Foi no Timeo, ao entardecer, que um aroma delicioso nos invadiu os sentidos, vindo não sabíamos de onde. Perguntámos a alguém do staff: gelsomino, disseram — e só depois percebemos que era jasmim, o mesmo perfume que nos tinha encantado dois anos antes, em 2010, em Portofino. Há cheiros que se tornam mapa: bastou aquele para nos levar de volta a outra costa italiana, a outro ano, ao mesmo encanto.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Nem tudo numa viagem de sonho é sonho. Numa madrugada, já perto do fim da estadia, o Paulo teve uma dor súbita que não dava para ignorar. Não havia hospital na ilha — só o resort, o mar à volta, e a certeza de que precisávamos de ajuda a sério.
Foi um speedboat que nos levou, a correr, através do escuro, até Malé. Chegámos ao hospital sem saber bem o que esperar, e fomos atendidos por uma médica indiana — competente, calma, exatamente o que precisávamos naquela hora. Fomos tratados com uma qualidade que não esperávamos, ali, no meio do oceano Índico.
Ficou resolvido nessa noite, e o resto trataram-se em Dublin, ao regresso. Mas ficou também a lembrança de que mesmo o paraíso tem os seus sustos — e que, quando é preciso, a ajuda aparece onde menos se espera.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Há uma certa tranquilidade em navegar quando tudo parece correr como previsto. Talvez seja por isso que o silêncio se torna tão estranho quando o motor se cala.
Foi exatamente isso que aconteceu.
Ficámos à deriva numa ilha minúscula, praticamente deserta. O barco recusava-se a pegar, não havia rede para pedir ajuda e, por alguns minutos, percebemos que estávamos completamente entregues à sorte.
O Paulo não hesitou. Atirou-se à água e nadou até um barco turístico que passava ao longe, um daqueles cruzeiros temáticos com piratas a bordo. Eu, que não sei nadar, fiquei sozinha no barco, a vê-lo afastar-se, sem poder fazer mais do que esperar.
A espera pareceu muito mais longa do que realmente foi.
Entretanto, um outro barco igual ao nosso passou por acaso, recolheu-me e levou-me até junto dele. Pouco depois, os "piratas" levaram-nos de regresso a terra, enquanto o nosso barco ficava para trás, à espera de ser recuperado.
O mais curioso é que, depois de nos salvarem, ainda nos cobraram o bilhete.
Nem nos filmes de piratas o resgate acaba assim.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Há lugares de que guardamos a morada. Outros ficam apenas na memória.
Perto da moradia onde estávamos havia um pequeno restaurante italiano. Nunca chegámos a saber, ao certo, como se chamava. Curiosamente, isso nunca fez diferença. Sabíamos apenas o caminho.
Havia, no entanto, um habitante impossível de esquecer. Um gato que passeava calmamente entre as mesas, cumprimentava os clientes e observava tudo como quem supervisiona o próprio restaurante. Estamos quase certos de que se chamava Alex.
Voltámos lá várias vezes.
Não apenas pela simpatia do lugar ou pela companhia felina, mas por causa de um vinho tinto italiano, ligeiramente gaseificado e com um toque adocicado, diferente de tudo o que alguma vez tínhamos provado.
Nunca mais o encontrámos.
Também nunca soubemos o nome do restaurante nem o do vinho. E, talvez por isso, ambos tenham permanecido perfeitos na memória. Talvez seja esse o segredo de algumas recordações. Não precisamos de lhes saber o nome para nunca mais as esquecermos.

Viajar nunca foi apenas mudar de lugar.
Desde cedo, procurámos a beleza, a harmonia e aqueles momentos raros que permanecem na memória muito depois do regresso a casa.
O Travellers começou há muitos anos, ainda numa outra fase das nossas vidas, quando criámos o primeiro site para guardar as nossas viagens. Na altura, a fotografia era o centro de tudo. Viajávamos com uma DSLR, procurávamos imagens especiais e construímos um álbum visual feito de paisagens, hotéis, restaurantes e lugares que nos tinham marcado.
Com o tempo, a forma de viajar mudou. E mudou também a forma como olhamos para as viagens.
Percebemos que, mais do que as fotografias perfeitas, eram os momentos que permaneciam connosco: uma conversa inesperada, uma refeição memorável, uma estrada desconhecida, uma vista que nos deixou sem palavras ou uma pequena situação que anos depois ainda contamos com um sorriso.
Foi assim que o Travellers evoluiu.
Deixou de ser apenas um registo dos lugares onde estivemos para se tornar um arquivo das experiências e dos momentos que fizeram esses lugares especiais.
Ao longo dos anos fomos aprendendo a viajar. Começámos como tantos outros, escolhendo destinos, descobrindo hotéis, restaurantes e paisagens pelo caminho. Com o tempo, viajar tornou-se uma paixão e, de certa forma, uma arte: aprendemos a escolher melhor, a observar mais e a valorizar não apenas os grandes monumentos, mas também os pequenos detalhes que tornam cada viagem única.
Essa procura levou-nos, por vezes, a algumas extravagâncias: atravessar um país para um almoço, apanhar um avião apenas para jantar ou escolher um destino porque uma determinada experiência parecia justificar a viagem.
É por isso que encontrarás no Travellers algumas viagens assinaladas como "Uma Extravagância". Não porque fossem necessárias, mas porque acabaram por se tornar inesquecíveis.
Aqui encontrarás os lugares por onde passámos, os hotéis onde ficámos, os restaurantes que nos marcaram e, sobretudo, os momentos que fizeram cada viagem valer a pena.
As viagens estão organizadas de acordo com as diferentes fases da nossa vida — desde os primeiros anos, passando por Dublin, Genebra e Guimarães — porque também a nossa forma de viajar evoluiu ao longo do tempo.
Mais do que uma coleção de destinos, o Travellers é uma coleção de memórias.
Esperamos que estas páginas inspirem novas viagens, despertem memórias de lugares já conhecidos ou transmitam um pouco da beleza que tivemos o privilégio de encontrar pelo caminho.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
No exterior do Johnnie Fox's havia um pequeno detalhe que nos chamou a atenção.
Um letreiro anunciava uma "pedra do tempo".
Era literalmente uma pedra pendurada no fim de uma corda.
Depois de anos de previsões meteorológicas cada vez mais sofisticadas, ali estava uma solução muito mais simples.
A pedra dizia tudo.
Se estava molhada, estava a chover.
Se balançava, estava vento.
Se estava branca, estava a nevar.
Se estava seca, fazia sol.
Se desaparecia de vista, havia nevoeiro.
Uma previsão meteorológica sem satélites, computadores ou aplicações.
Apenas uma pedra e uma boa dose de humor irlandês.
Foi um daqueles pequenos detalhes encontrados pelo caminho que não aparecem nos grandes roteiros, mas que ficam na memória.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Ainda estávamos há pouco tempo a viver em Dublin quando um casal amigo nos levou ao Johnnie Fox.
A primeira impressão foi péssima.
Chegámos a considerar sair imediatamente. Quase nos sentimos ofendidos com a ideia de nos terem levado para um lugar tão oposto a tudo aquilo que habitualmente procurávamos.
Gostamos de sossego, elegância, harmonia, beleza.
Nada disso parecia existir no Johnnie Fox.
Era um pub escuro, cheio de recantos inesperados e uma decoração que, aos nossos olhos, parecia quase absurda: penicos pendurados no tecto, roupa antiga diante das lareiras, objectos com dezenas de anos espalhados pelas prateleiras.
Quase esperávamos ver fantasmas sentados ao balcão a beber uma pint.
Mas havia algo curioso: apesar de tudo aquilo, o ambiente não era pesado. Havia vida.
Decidimos ficar mais uns momentos, por consideração aos nossos amigos.
E foi então que começámos a perceber.
A música ao vivo começou, as pessoas juntaram-se aos músicos e, pouco a pouco, o pub inteiro transformou-se numa celebração. Cantavam todos juntos as músicas tradicionais irlandesas, sem vergonha, sem distância, sem a preocupação de parecer elegante.
Havia ali uma alegria que contrariava completamente aquilo que os nossos olhos tinham visto.
Quando demos por nós, já não queríamos ir embora.
Depois daquele dia, deixámos de ser levados ao Johnnie Fox.
Passámos a ser nós a levar lá todos os nossos convidados.
Afinal, o problema não era o lugar.
Éramos nós que ainda não o tínhamos percebido.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Num dos nossos passeios pela Irlanda do Norte parámos na Carrick-a-Rede Rope Bridge.
É uma pequena ponte suspensa de corda que liga o continente a um pequeno ilhéu, sobre o mar.
Fui em direção à ponte sem qualquer hesitação.
Na minha cabeça, era apenas mais uma experiência para fazer.
Mas, no momento em que um dos meus pés tocou a ponte, aconteceu algo inesperado.
O meu corpo parou.
Os meus pés recusaram-se a continuar.
Por mais que quisesse avançar, não consegui.
Foi ali que descobri uma coisa que não sabia sobre mim: tinha medo de alturas e de precipícios.
Às vezes uma viagem não serve apenas para conhecer lugares novos.
Também serve para descobrirmos coisas sobre nós próprios.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Gruyères é conhecida em todo o mundo pelo queijo.
Mas uma das recordações mais inesperadas que guardamos da vila não tem qualquer relação com gastronomia.
Tem a ver com um extraterrestre.
Ou, mais precisamente, com o universo criado por H. R. Giger, o artista suíço responsável pela estética inconfundível de Alien.
À primeira vista, nada faz prever o que se esconde a poucos metros das ruas empedradas, das fachadas medievais e das varandas floridas. Gruyères é uma vila serena, quase bucólica, onde tudo parece pertencer a outro tempo.
E, de repente, abre-se uma porta para outro mundo.
O H. R. Giger Bar parece o cenário de um filme de ficção científica. Arcos que lembram esqueletos, formas biomecânicas, paredes orgânicas e uma iluminação que cria uma atmosfera estranha, quase irreal.
Não é um bar decorado com um tema. É uma obra de arte onde, por acaso, também se pode beber um café.
Não somos particularmente fãs de Alien, nem aquele universo corresponde ao nosso gosto pessoal.
Mas isso nunca diminuiu o fascínio da visita.
Talvez porque seja precisamente o contraste que torna tudo tão inesperado.
Uma pequena vila medieval suíça, conhecida pelo queijo e pelas casas floridas, e no meio dela um lugar que parece ter vindo de outro planeta.
É difícil imaginar uma combinação mais improvável.
E é justamente por isso que não se esquece.

A pouco mais de uma hora de Genebra, Lavaux tornou-se um dos nossos destinos obrigatórios durante os verões na Suíça.
Voltávamos ano após ano. Por vezes, várias vezes no mesmo verão.
E, mesmo depois de tantas visitas, a primeira visão dos socalcos sobre o Lago Léman continuava a provocar-nos a mesma reacção.
As vinhas estão abertas a todos. É possível caminhar livremente entre elas, sem barreiras, sem vedações, sem a sensação de que a natureza precisa de ser protegida do visitante.
Podíamos simplesmente entrar naquela paisagem e fazer parte dela.
Mas Lavaux nunca foi apenas sobre as vinhas.
Eram também as pequenas aldeias perdidas entre os socalcos, o lago de águas absolutamente translúcidas onde se podia nadar e as montanhas imponentes do outro lado da margem.
Vinhas, lago e montanhas.
Cada um destes elementos seria suficiente para criar uma paisagem memorável. Ali, estavam todos juntos.
Talvez tenha sido por isso que continuámos a voltar.
Não porque a paisagem mudasse.
Mas porque nós nunca nos cansámos de a ver.
Annecy ficava praticamente à porta de Genebra. Pouco mais de meia hora de carro separava-nos desta vila encantadora em França, com os seus canais, as suas casas coloridas e um lago de uma beleza quase irreal.
Todos os anos, no primeiro sábado de agosto, acontece a Fête du Lac, um dos grandes espetáculos de verão da região. Fomos até lá por causa do fogo de artifício, que prometia ser muito mais do que um simples espetáculo de luz.
Nesse ano, o tema era a história da pintura. Numa época em que estávamos particularmente interessados em arte, a ideia de ver grandes obras transformadas em fogo, música e movimento tornou a experiência ainda mais especial.
E o espetáculo superou todas as expectativas.
A apresentação era construída como uma sequência de quadros. Pequenas instalações de fogo de artifício, acompanhadas por música, procuravam recriar momentos marcantes da história da pintura.
E o mais incrível era reconhecer aquilo que surgia diante dos nossos olhos: um nascimento de Vénus, uma Mona Lisa, referências a obras que julgávamos impossíveis de traduzir para o céu.
Durante aquelas horas, o lago de Annecy transformou-se numa enorme tela iluminada.
Nunca tínhamos visto nada assim. E nunca mais voltámos a ver algo parecido.
Foi uma daquelas noites em que um espetáculo deixa de ser apenas algo que se vê e passa a ser uma memória que fica.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Há noites em que tudo corre exatamente como planeado. E há outras em que, apesar dos pequenos desastres pelo caminho, acabam por ficar ainda mais presentes na memória.
Annecy ficava tão perto de Genebra que esta era uma daquelas escapadas que pareciam quase obrigatórias. Nessa noite, tínhamos comprado bilhetes para o espaço aberto junto ao lago. Entrámos relativamente cedo para conseguir um bom lugar na relva e preparar-nos para o espetáculo.
Era agosto. O dia tinha estado quente.
Mas, algures antes do início, o céu decidiu participar na experiência.
Começou a chover.
Não uma chuva passageira, mas uma verdadeira tempestade. E nós estávamos no meio do campo, sem possibilidade de sair e voltar a entrar. Restava-nos esperar.
Ficámos.
A chuva continuou, a roupa ficou completamente encharcada, mas o espetáculo que se seguiu fez tudo valer a pena. O lago, as luzes, a música e o fogo de artifício criaram uma noite tão extraordinária que o desconforto passou para segundo plano.
No fim, regressámos ao carro molhados até aos ossos. Tirámos a roupa ensopada, enrolámo-nos nas toalhas de praia e fizemos o caminho de volta para Genebra como dois náufragos felizes.
Cansados, desconfortáveis e completamente molhados.
Mas maravilhados com uma noite que dificilmente esqueceríamos.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Durante os anos em que vivemos em Genebra, o Lago d'Orta era uma escapadinha fácil. Bastava atravessar o túnel do Mont Blanc para, em poucas horas, estarmos em Itália.
Visitámo-lo várias vezes.
Orta San Giulio era uma pequena vila pitoresca, com ruas estreitas, casas antigas e uma ilha no centro do lago, onde chegámos a ir.
Era bonito.
Na Suíça, os lagos impressionam pela transparência da água, pela organização das margens e por aquela sensação de pureza quase irreal.
Os lagos italianos têm uma beleza completamente diferente. Menos perfeita, talvez, mas cheia de charme: as vilas junto à água, os jardins, os hotéis históricos e aquela atmosfera italiana que lhes dá uma personalidade própria.
Sempre adorámos os lagos italianos.
O Lago d'Orta simplesmente acabou por ficar associado a memórias mais curiosas do que deslumbrantes.
Havia também um lugar que já conhecíamos antes da viagem e que sempre nos fascinou: o Villa Crespi.
A sua arquitetura mourisca, tão inesperada junto a um lago italiano, sempre nos chamou a atenção. É um estilo que apreciamos muito, pelo seu lado exótico e pela capacidade de nos transportar para outro lugar.
Mas a memória mais forte que ficou do Lago d'Orta acabou por ser muito menos elegante.
Numa das visitas, sentámo-nos numa esplanada no centro da vila, junto ao lago. Pedimos qualquer coisa para comer e, depois de uma única garfada, percebemos que aquilo era impossível.
Não comemos nada.
Pagámos e fomos embora.
Acabámos por comprar uma pizza take away e comê-la tranquilamente junto ao lago.
Foi uma experiência tão marcante que só voltámos a sentir algo semelhante muitos anos mais tarde, num restaurante de rua em Braga.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Lyon ficava a menos de duas horas de Genebra. Numa tarde de dezembro alugámos um carro e fomos descobrir a Fête des Lumières.
Durante quatro noites, a cidade transforma-se por completo.
As fachadas dos edifícios deixam de ser apenas fachadas. Tornam-se telas gigantes onde a luz, as cores e o movimento contam histórias que mudam a cada instante.
Praças, igrejas e monumentos ganham uma nova vida. A cada esquina havia uma nova projecção, uma nova surpresa, um novo motivo para parar e olhar.
Percorremos as ruas sem pressa, escolhendo o nosso próprio caminho.
E foi aí que percebemos que aquilo era diferente de um espectáculo convencional.
Não havia plateia nem palco. As ruas eram a plateia. Os edifícios eram o palco. E nós estávamos lá dentro, a caminhar entre as projecções.
A sensação era de atravessar uma cidade que, durante algumas horas, tinha deixado de ser real.
Ainda hoje, quando pensamos na Fête des Lumières, lembramo-nos menos das imagens concretas do que daquela sensação: caminhar por Lyon como se estivéssemos dentro da própria luz.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Varenna foi uma viagem diferente.
Fomos de Genebra até ao Lago Como usando apenas transportes públicos.
Primeiro o comboio.
Depois o autocarro.
E finalmente o barco.
Alugámos um Airbnb mesmo junto ao lago, em Varenna, e a viagem até lá fazia parte da experiência.
Chegados ao cais, procurámos o barco que nos levaria até ao nosso destino.
Parecia simples.
Mas rapidamente percebemos que aquele cais italiano tinha uma lógica própria.
Não havia painéis eletrónicos com os destinos, nem indicações claras dos cais de embarque.
Num espaço cheio de pessoas, malas e barcos a chegar e partir, tentávamos perceber onde devíamos ir.
Até que descobrimos a regra.
O destino era anunciado por alguém a gritar o nome do próximo barco prestes a sair.
Um método um pouco diferente da Suíça de onde vínhamos.
Mas funcionava.
E, felizmente, depois de alguma confusão inicial, lá encontrámos o nosso barco.
A última etapa estava cumprida.
Varenna esperava por nós.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Na altura ainda não éramos especialistas em viagens.
Escolhemos Marrakech precisamente pelo tipo de lugar que sempre nos atraiu: um hotel com arquitetura local, cheio de detalhes, com uma estética diferente daquela a que estávamos habituados.
As fotografias eram lindas.
Mas a chegada foi bem diferente da imagem tranquila que tínhamos criado.
O transfer do aeroporto era um carro antigo, cheio de cheiros, que rapidamente me deixou mal disposta.
Quando chegámos ao centro da cidade, com algum receio, o carro parou numa rua movimentada e confusa.
Não víamos hotel nenhum.
Por momentos pensámos o pior.
Mas não era nada disso.
Era apenas a forma como funcionavam. O hotel ficava numa zona onde os carros não conseguiam entrar, e aquela era a última paragem possível.
Depois veio a confirmação de uma coisa: a estética era exatamente aquilo que esperávamos.
O hotel era bonito, cheio de personalidade e com a arquitetura local que nos tinha atraído.
Mas o serviço não acompanhava a imagem.
Durante a estadia fiquei doente e, num momento de aflição, a minha mãe tentou pedir ajuda ao staff para chamar um médico.
Encontrou-os todos em oração, prostrados, completamente concentrados naquele momento.
O contraste ficou-nos marcado.
Num lugar onde a devoção parecia ocupar um espaço tão importante, naquele instante sentimos a falta de disponibilidade para ajudar alguém que precisava de auxílio.
Tivemos de esperar que a oração terminasse para conseguirmos ajuda.
Marrakech ficou assim na nossa memória.
Um lugar onde a beleza que tínhamos imaginado estava lá, mas onde também descobrimos que cada cultura tem os seus próprios códigos e que viajar é, muitas vezes, confrontarmo-nos com realidades diferentes das nossas.

Foto de terceiros.


Imagem ilustrativa gerada por IA.
Há encontros que mudam uma vida. Este não mudou rigorosamente nada.
Estávamos a jantar no pátio do Hotel Valldemossa. A vista sobre a vila e a serra era magnífica, e o fim de tarde convidava a prolongar o jantar sem pressa.
Foi então que reparámos na mesa ao lado.
Era Bastian Schweinsteiger, um dos jogadores da seleção alemã. Não havia fotógrafos, nem confusão, nem ninguém a pedir autógrafos. Apenas um homem a jantar tranquilamente, como qualquer outro hóspede.
Nunca tinha estado tão perto de uma pessoa conhecida.
É curioso como a televisão nos faz acreditar que estas pessoas pertencem a um mundo distante. Depois, um dia, estão sentadas na mesa ao lado, a escolher o jantar e a conversar, exatamente como nós.
Não lhe fomos falar. Pareceu-nos que aquele anonimato momentâneo valia mais do que uma fotografia ou um autógrafo.
No dia seguinte, a recordação continuava a ser a mesma: não a de termos visto um futebolista famoso, mas a de termos percebido que, longe dos estádios, as celebridades também acabam por ser apenas viajantes a desfrutar de um jantar com vista para uma das mais belas vilas de Maiorca.

Foto de terceiros.

Foto de terceiros.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
A Villa del Balbianello nunca chegou a abrir-nos as portas.
Na única vez que tentámos visitá-la, encontrámo-la fechada ao público por causa de um evento local.
Poderia ter sido uma desilusão.
Acabou por ser exactamente o contrário.
Alugámos um pequeno barco e passámos a vê-la da água, da forma como provavelmente foi pensada para ser admirada.
Construída sobre uma pequena península arborizada, parece surgir directamente do lago. Os jardins em socalcos, a arquitectura elegante e a vegetação que desce até à água explicam porque se tornou uma das imagens mais conhecidas do Lago di Como.
Mas, vista do barco, há qualquer coisa que uma visita ao interior provavelmente não teria.
A villa deixa de ser um destino e passa a fazer parte da paisagem.
Aproximávamo-nos lentamente, com o lago à nossa volta e as margens do Como a sucederem-se em redor: villas históricas, pequenas povoações, jardins e encostas verdes.
Nunca chegámos a entrar na Villa del Balbianello.
E, olhando para trás, talvez tenha sido melhor assim.
A imagem que guardamos é a de a vermos aproximar-se lentamente do barco, integrada na paisagem, como se nunca tivesse sido um monumento para visitar, mas apenas uma parte natural daquele lago extraordinário.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Assistimos a vários concertos memoráveis ao longo dos anos.
Mas, se tivéssemos de guardar apenas um, seria o de Tony Bennett e Lady Gaga.
À primeira vista, pareciam um par improvável. Tony Bennett, já com uma carreira de décadas, representava uma elegância clássica, quase de outra época. Lady Gaga era o oposto aparente: extravagante, irreverente, impossível de ignorar.
E, no entanto, em palco, tudo encaixava.
Ela não tentou ser menos exuberante, nem ele precisou de acompanhar o seu ritmo. Encontraram-se a meio caminho, com uma cumplicidade que fazia parecer natural uma dupla que, no papel, dificilmente imaginaríamos.
Foi um daqueles concertos em que percebemos que não estávamos apenas a ouvir grandes intérpretes.
Estávamos a assistir a duas gerações da música a encontrarem-se no mesmo palco.
Tony Bennett, impecável, com a elegância de um verdadeiro gentleman.
Lady Gaga, exuberante e absolutamente à vontade ao seu lado.
E os dois juntos, a fazer todo o sentido.

Durante os anos em que vivemos em Genebra, fizemos muitas viagens a bordo dos antigos barcos a vapor da Belle Époque que navegam pelo Lago Léman.
Não eram apenas uma forma de chegar a algum lado.
Muitas vezes seguíamos de comboio até Lausanne e era aí que a viagem verdadeiramente começava.
O lago estendia-se tranquilo à nossa frente. De um lado, os socalcos das vinhas de Lavaux. Do outro, as montanhas que pareciam acompanhar o barco durante todo o percurso.
O destino era, quase sempre, Montreux.
Mas nem sempre havia pressa em chegar.
Por vezes desembarcávamos num pequeno cais pelo caminho, apenas para passar algumas horas junto às águas incrivelmente transparentes do lago, antes de esperar pelo barco seguinte.
Era uma maneira de viajar sem urgência. Sem querer chegar depressa. Apenas o som ritmado das rodas de pás a vencerem a água, enquanto as vinhas, as aldeias e as montanhas desfilavam lentamente à nossa volta.
Fizemos tantas vezes aquele percurso que deixou de ser uma excursão e passou a fazer parte da nossa vida.
E talvez seja isso que torna aquelas viagens tão especiais.
Não íamos de barco para chegar a algum lugar.
Íamos porque o barco era o destino.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Cinque Terre é daqueles lugares que parecem obrigatórios em qualquer lista de viagem a Itália.
As cinco aldeias da costa da Ligúria — Monterosso al Mare, Vernazza, Corniglia, Manarola e Riomaggiore — são famosas pelas casas coloridas agarradas às encostas, pelas falésias sobre o mar e pelas imagens perfeitas que percorrem o mundo.
E talvez esse seja precisamente o problema.
Vista de longe, a partir do mar, Cinque Terre é extraordinária. As cores das casas, empoleiradas nas colinas sobre o azul intenso da água, criam uma paisagem quase irreal.
Mas de perto, a sensação foi outra.
Encontrámos pequenas aldeias piscatórias, com ruas gastas pelo tempo, edifícios a precisar de cuidado e uma quantidade enorme de visitantes. Onde esperávamos encontrar uma beleza intemporal, encontrámos sobretudo a passagem dos anos.
Não era feio.
Mas também não era aquilo que tínhamos imaginado.
Talvez o nosso olhar já viesse influenciado por outro lugar da mesma região: Portofino.
Também ela uma pequena vila piscatória, mas transformada numa imagem quase perfeita — as casas em tons pastel, a vegetação exuberante descendo pelas encostas, o mar azul profundo e os barcos elegantes ancorados na pequena baía.
Em Veneza, a passagem do tempo acrescenta mistério. A decadência faz parte da beleza. As marcas da idade parecem contar histórias.
Em Cinque Terre, para nós, foi diferente. A mesma passagem do tempo não criou magia; criou apenas desgaste.
No fim, talvez a maior lição das viagens seja esta: nem todos os lugares famosos nos conquistam.
E isso também faz parte de viajar.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Fomos até Itália porque o Paulo ia participar num torneio de xadrez em Recco. Ficámos alojados em Rapallo e os meus pais foram connosco.
Enquanto o Paulo jogava, nós aproveitávamos para passear por Rapallo.
Foi num desses passeios que encontrámos um restaurante simpático onde decidimos almoçar.
Na ementa estava o spaghetti alle vongole.
Eu já tinha uma história com aquele prato. Tinha-o adorado em Florença, muitos anos antes, e a memória ainda estava bem presente.
Pedi sem hesitar.
E a memória não me enganava.
Continuava a adorar.
Tanto que, nos três ou quatro dias em que estivemos em Rapallo, o meu almoço ficou decidido.
Spaghetti alle vongole.
Todos os dias.

Foto de terceiros.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Não fomos a Dijon por causa de Dijon.
Fomos porque o Paulo tinha um torneio de xadrez.
Pegámos num carro alugado e fizemos a viagem até à Borgonha, numa daquelas pequenas aventuras que começam com um objetivo muito concreto e acabam por deixar memórias inesperadas.
Enquanto ele jogava, eu fui descobrindo a cidade.
Caminhei pelas ruas sem pressa, entre fachadas antigas, telhados coloridos e aquele ambiente tranquilo de uma cidade francesa que parece ter encontrado o seu próprio ritmo.
Dijon tem uma beleza discreta. Não é uma cidade que tenta impressionar imediatamente. Conquista aos poucos, nos detalhes, nas ruas, nas cores e na sensação de estar simplesmente a passear por um lugar onde a vida acontece devagar.
Não me lembro do resultado do torneio de xadrez.
Mas lembro-me de Dijon.
E talvez essa seja a melhor prova de que, muitas vezes, as melhores descobertas não são aquelas que planeamos.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Naquela viagem à Bélgica, tínhamos planeado conhecer várias cidades: Ghent, Bruges, Antuérpia e terminar em Bruxelas.
Chegámos a Bruxelas já ao anoitecer.
Desde os primeiros minutos sentimos que alguma coisa não encaixava. A cidade pareceu-nos pouco acolhedora. Pessoas no meio da estrada, que mal nos deixavam passar de carro, olhares que sentimos como francamente inóspitos e uma atmosfera que não nos convidava a ficar.
Chegados ao hotel, conversámos e tomámos uma decisão pouco habitual: não queríamos passar o dia seguinte a visitar uma cidade que, naquele momento, não nos tinha conquistado.
Tínhamos carro e o voo de regresso a Dublin era apenas ao final do dia. A pergunta era simples: para onde poderíamos ir?
Luxemburgo pareceu uma boa opção.
Algumas horas depois estávamos noutra cidade, a tomar o pequeno-almoço, a caminhar pelo centro e a descobrir um lugar tranquilo num domingo em que quase tudo estava fechado. Considerámos a visita feita.
Mas ainda tínhamos tempo.
Colónia ficava a cerca de duzentos quilómetros.
Porque não?
Seguimos viagem.
Almoçámos por lá e visitámos a famosa Catedral de Colónia. Imponente na sua dimensão, com as suas torres a dominar a cidade, impressionou-nos sobretudo pela cor quase negra da pedra exterior, uma presença austera e misteriosa que parece carregar séculos de história.
Ao fim do dia regressámos a Bruxelas, a tempo do voo de volta a Dublin.
Não foi o dia que tínhamos planeado.
Foi um daqueles desvios inesperados que acabam por se transformar numa memória de viagem.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Estávamos de passagem por Baden-Baden, uma antiga cidade termal que durante séculos atraiu a aristocracia europeia pelas suas águas e pelo seu ambiente sofisticado.
Decidimos conhecer o Friedrichsbad, atraídos pela sua magnífica piscina central e pela promessa de uma experiência diferente.
O bilhete incluía todo um ritual termal: várias salas, diferentes temperaturas, piscinas, uma massagem e, no final, uma pausa de descanso.
Não era propriamente o tipo de programa que fazíamos habitualmente.
Mas queríamos experimentar.
Havia apenas um pequeno detalhe que nos deixava algo desconfortáveis.
Tudo era feito sem fato de banho.
Sim, completamente nus.
Os primeiros minutos foram estranhos.
Muito estranhos.
A sensação de estar num espaço histórico, rodeados por desconhecidos, sem aquela barreira que normalmente usamos, parecia pouco natural.
Mas, como tantas vezes acontece quando viajamos, passado algum tempo deixou de ser estranho.
Era apenas a forma como aquele lugar funcionava.
E no final do circuito chegámos ao momento mais inesperado.
Numa sala enorme, cheia de camas individuais, fomos enrolados num lençol e depois num cobertor.
Ali ficámos, completamente embrulhados, como duas crianças depois de um dia de brincadeira.
E acabámos por adormecer profundamente.
No fim, aquilo que começou como um pequeno choque cultural acabou por ser uma das experiências mais relaxantes que tivemos.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Não fomos à Ópera Garnier para assistir a um espetáculo.
Fomos para ver o próprio edifício.
E rapidamente percebemos que não era necessário mais nada.
A fachada já anuncia o que nos espera lá dentro: mármore, dourados, esculturas, colunas e uma quantidade quase absurda de detalhes.
Depois entramos.
O enorme auditório em forma de ferradura, o lustre monumental de cristal e o teto pintado por Marc Chagall fazem com que seja difícil saber para onde olhar primeiro.
É um edifício pensado para impressionar.
E consegue.
Não apenas pela dimensão ou pela riqueza, mas pela maneira como tudo foi desenhado para criar uma sensação de espectáculo permanente. Os dourados reflectem a luz, os espaços sucedem-se uns aos outros e até os corredores parecem cenários.
Foi também ali, entre estes espaços, que Gaston Leroux encontrou inspiração para o universo do Fantasma da Ópera.
Mas, para nós, a história mais interessante estava no próprio edifício.
Não precisámos de assistir a uma representação para perceber o que torna a Ópera Garnier especial.
A beleza está nos detalhes, na escala e naquele excesso deliberado de uma época em que um edifício podia simplesmente querer ser magnífico.
E a Ópera Garnier é magnífica.
Nome atual completo: "Retro Riverside Wellness Resort Karlovy Vary by Axxos Hotels".

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Nunca gostei verdadeiramente do Carnaval. O ruído, a confusão, a falta de harmonia, a sensação de que muitas vezes a festa se transforma apenas em excesso, nunca me atraíram.
Mas o Carnaval de Veneza é outra coisa.
Aqui não há calor nem multidões em festa pelas ruas. Há vestes sumptuosas, cores profundas e máscaras que escondem os rostos, deixando apenas a imaginação preencher o que não se vê.
Foi assim que o conhecemos: misterioso.
Numa das noites, caminhávamos pelas ruelas estreitas de Veneza, pouco iluminadas, quando começaram a surgir figuras mascaradas no meio do silêncio.
Um grupo aqui, outro ali.
Apareciam por alguns instantes e desapareciam de seguida, como aparições vindas de outra época.
As suas vozes ouviam-se ao longe, misturavam-se com os sons da cidade e depois perdiam-se novamente na noite.
Foi talvez a primeira vez que percebi que um Carnaval podia ser feito não de barulho, mas de silêncio.
Não de exposição, mas de mistério.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Fomos a Veneza três ou quatro vezes.
E em nenhuma delas andámos de gôndola.
Não porque não gostássemos da ideia.
Simplesmente achávamos demasiado caro para aquilo que nos oferecia.
Nunca tivemos problemas em pagar bem por uma experiência que realmente nos preencha. O que não gostamos é de gastar por gastar — ou, pior ainda, gastar só porque toda a gente faz.
E Veneza não deixou de ser uma cidade de água por não termos entrado numa gôndola.
Usámos os barcos de transporte público, navegámos pelos canais, passámos por baixo das pontes e vimos a cidade a partir da água.
Fizemos, afinal, aquilo que queríamos fazer.
Só não pagámos uma pequena fortuna para o fazer num determinado tipo de barco.
E as gôndolas continuaram a atravessar os canais à nossa volta, elegantes e silenciosas, fazendo parte da paisagem que guardámos de Veneza.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
O La Sponda, em Positano, é daqueles lugares em que a noite parece ter sido cuidadosamente encenada.
À luz de centenas de velas, jantávamos entre flores, cerâmicas e o brilho das luzes de Positano lá em baixo.
E havia música ao vivo.
Os músicos iam passando de mesa em mesa, tocando clássicos italianos, até chegarem à nossa.
O Paulo pediu Crepuscolo sul mare.
Era uma das músicas da nossa playlist italiana, que já nos acompanhava naquela viagem.
Os músicos entreolharam-se.
Não faziam ideia do que estávamos a pedir.
Tentámos explicar, mas não chegámos a lado nenhum.
Acabámos por trocar o pedido por L'appuntamento.
Essa conheciam.
E assim, naquela noite iluminada por velas, entre o mar e as luzes de Positano, ouvimos mais uma música italiana que já fazia parte da nossa viagem.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Na Villa Treville, em Positano, estávamos a beber cocktails num daqueles lugares em que a vista parece quase exagerada.
Mar, falésias, o azul do Mediterrâneo.
Foi então que reparámos num pequeno promontório ali perto. Parecia apenas mais um pedaço de jardim suspenso sobre o mar.
Até percebermos que era um cemitério.
Ficámos a olhar.
Não podíamos deixar de achar graça à ideia: naquele lugar, até a última morada tinha uma vista extraordinária.
Talvez fosse uma das melhores vistas de Positano.
E, convenhamos, não é uma má maneira de ficar por ali.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Foi o concierge do Il San Pietro que, numa conversa connosco, levantou a questão: tempo ou dinheiro?
Falávamos sobre a velha ideia de trabalhar mais, ganhar mais e acumular mais, sempre com a promessa de que, um dia, teríamos finalmente tempo para aproveitar a vida.
A certa altura, disse-nos:
— Tenho um vídeo que explica isso muito bem.
E mostrou-nos Il Milanese a Napoli.
Um milanês encontra um pescador napolitano que já terminou o trabalho do dia. Tenta convencê-lo a trabalhar mais, ganhar mais, comprar barcos, criar um negócio, ficar rico.
— E depois?
Depois poderia finalmente descansar, beber vinho, estar com os amigos, aproveitar a vida.
O pescador já estava a fazer exactamente isso.
Rimo-nos.
E talvez tenha sido por isso que a história ficou connosco.
Porque naquele momento, no San Pietro, estávamos precisamente a fazer o contrário da corrida pelo "depois".
Estávamos a comprar tempo para aproveitar o agora.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Foi uma viagem particularmente curated.
Belmond Caruso, Il San Pietro, restaurantes do mesmo calibre — tudo escolhido ao detalhe.
Até a música.
Criámos uma playlist para acompanhar a viagem pela Costiera Amalfitana. Uma selecção de música italiana que conhecíamos e de que gostávamos. Eram músicas de outros tempos, sim. E era exactamente isso que queríamos.
Num dos transfers, o motorista começou a ouvir a nossa playlist.
A certa altura:
"Este já morreu."
Mais à frente:
"Este também."
E continuava.
Até que, já completamente espantado, disse:
"Sono tutti morti!"
They are all dead!!
E logo a seguir, incrédulo:
"How do you know this?? I only know because of my parents."
Para ele, era estranho que dois estrangeiros conhecessem aquelas músicas. Para nós, era simplesmente uma das razões por que gostamos de Itália.
"We like Italy."
E assim, uma playlist que tínhamos criado de propósito para acompanhar a Costiera Amalfitana ganhou um nome que não estava nos planos.
La playlist dei morti.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Eu tenho uma ideia muito própria do que é um piquenique.
Não envolve sandes embrulhadas, copos de plástico ou roupa de desporto.
Para mim, um piquenique pode perfeitamente ser feito de vestido, sapatos ou sandálias de salto, vinho e tudo aquilo que torna uma refeição ao ar livre especial.
Foi por isso que gostámos tanto do piquenique do Vinha Boutique Hotel.
Num relvado cuidado, com o Douro ali à frente, o cenário já fazia metade da experiência.
Começava pelo set-up: as almofadas, as mantas, o guarda-sol, o cesto de vime.
Depois vinha a comida, cuidada como seria num restaurante, os copos de vidro, a porcelana e, naturalmente, o vinho.
Era exactamente o tipo de piquenique que eu tinha na cabeça.
Eu estava de vestido e de saltos. Só os tirei quando chegou a hora de me sentar e deitar na relva.
Afinal, até um piquenique elegante tem de acabar com os pés descalços.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Altea é exactamente aquilo que esperamos encontrar no Mediterrâneo.
O mar azul-turquesa, os pinheiros mansos, as buganvílias em flor, a luz intensa.
E depois há uma igreja russa.
No meio daquele cenário, a Igreja Ortodoxa Russa de São Miguel Arcanjo parece quase deslocada.
Fomos visitá-la por pura curiosidade.
A construção em madeira, as cúpulas douradas e todo aquele ambiente ortodoxo pareciam pertencer a outro lugar, a muitos milhares de quilómetros dali.
Era uma combinação improvável.
Rússia e Costa Blanca, lado a lado.
E talvez seja precisamente essa estranheza que tornou a igreja memorável.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Ficámos no Octant Furnas, um hotel com termas próprias e duas piscinas de água quente: uma interior e outra exterior.
Num dos dias decidimos fazer uma coisa que, àquela hora, parecia uma excelente ideia.
Ver o nascer do sol dentro da piscina.
Pusemos o despertador para muito cedo.
Ainda era noite cerrada quando saímos do quarto e fomos para a piscina exterior.
A água estava a cerca de 39 graus e sabia especialmente bem naquela madrugada fresca de dezembro.
Corria um vento ligeiro, mas nós estávamos protegidos dentro da água quente.
À nossa volta, não havia ninguém.
Completamente sozinhos.
Mais nenhum maluco tinha tido a mesma ideia.
E ali ficámos.
Sem pressa, dentro de água, à espera que a noite desse lugar ao dia.
Ficámos até o sol nascer completamente.
Depois voltámos para a cama.
Valeu a pena acordar cedo.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Quando fizemos esta viagem, estávamos a começar a descobrir o mundo da alta perfumaria.
A descoberta tinha começado pouco antes, com a compra do nosso primeiro verdadeiro perfume de alta perfumaria no aeroporto de Zurique: o Baccarat Rouge 540, da Maison Francis Kurkdjian.
Kuala Lumpur acabou por nos surpreender também nesse lado.
Os centros comerciais da cidade eram de uma dimensão e de um luxo que pouco encontrávamos na Europa.
Lojas Louis Vuitton enormes, espaços cuidadosamente desenhados e uma abordagem diferente à alta perfumaria.
Em vez de encontrarmos apenas balcões dentro de grandes lojas, muitas marcas tinham os seus próprios espaços.
Foi assim que descobrimos a Henry Jacques.
Entrámos por curiosidade.
A loja era pequena, mas de uma elegância impressionante. A decoração, o ambiente e sobretudo o atendimento faziam parecer que estávamos numa experiência privada.
Sentaram-nos em sofás e começaram a apresentar-nos os perfumes.
A marca trabalha com concentrações tão elevadas de óleos essenciais que não utiliza vaporizadores, para evitar desperdiçar uma única gota daquele conteúdo precioso.
Frascos pequenos, de apenas 30 ml, com preços sempre acima dos 700 euros.
Mas com uma característica que nos impressionou:
uma única gota podia permanecer na pele durante dias.
Não comprámos nenhum.
Mas saímos de lá com a sensação de ter descoberto uma nova forma de apreciar perfume.
Mais do que um produto, era uma experiência.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Kuala Lumpur foi apenas uma paragem entre Langkawi e o regresso à Europa.
Como tínhamos algum tempo, decidimos aproveitar para conhecer a cidade e ir ver as Torres Petronas, que já tínhamos visto ao longe.
Andávamos de transportes públicos, naquele sistema de comboios urbanos, quando percebemos que não era assim tão simples perceber como lá chegar.
Perguntámos a algumas pessoas.
A reação era sempre a mesma.
Eram simpáticos, prestáveis, ajudavam-nos até a comprar os bilhetes e tentavam orientar-nos.
Mas quando dizíamos "Torres Petronas", nada.
Caras de dúvida.
Tentávamos explicar.
"As torres muito altas…"
Continuávamos sem reconhecimento.
Para nós era estranho.
Aquelas torres eram o símbolo de Kuala Lumpur. Eram a imagem que imediatamente associávamos à cidade.
Mas, para quem ali vivia, pareciam ser apenas mais um elemento da paisagem.
Acabámos por nos orientar sozinhos.
E ficou-nos essa pequena surpresa de viagem: aquilo que para quem chega de fora parece definir uma cidade, nem sempre tem o mesmo significado para quem vive nela todos os dias.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Tudo começou numa sexta-feira de abril.
Estávamos na varanda de casa quando, quase sem pensar, surgiu a ideia de fazer uma escapadela ao Alentejo e conhecer o Vermelho.
Lembrámo-nos de que o hotel tinha uma piscina exterior aquecida, um detalhe importante para um fim de semana de primavera.
Ligámos para confirmar.
— Sim, a água está a 25 graus.
Era tudo o que precisávamos de ouvir.
Fizemos a reserva naquele momento, preparámos as malas e, poucas horas depois, estávamos a caminho.
Nunca antes tínhamos feito uma viagem tão por impulso.
A estadia foi agradável. O Vermelho é um boutique hotel cheio de personalidade, com uma curiosa influência indiana, e a piscina correspondeu exatamente ao que esperávamos.
No domingo, antes do regresso a casa, fomos até Porto Covo.
Foi no caminho de regresso ao hotel que o carro começou a comportar-se de forma estranha. As ajudas eletrónicas desapareceram uma após outra e conseguimos chegar ao Vermelho com alguma dificuldade.
A equipa do hotel fez tudo o que podia para encontrar um mecânico.
Encontrar um mecânico até era possível.
O problema era encontrar, num domingo à tarde, alguém com o equipamento necessário para perceber o que se passava.
Acabámos por chamar a assistência em viagem.
O reboque foi buscar o carro ao hotel e um táxi levou-nos até Lisboa para levantarmos um carro de substituição e podermos regressar a Guimarães.
Mas, para nós, nunca foi um momento de grande preocupação.
Estávamos no Vermelho, confortáveis, com uma solução encontrada e sem qualquer custo associado. O problema estava entregue a quem tinha de o resolver.
O senhor do reboque parecia mais preocupado do que nós. Não entendia bem a nossa tranquilidade ao entregar-lhe o carro e regressar ao hotel, como se aquela situação fizesse simplesmente parte da viagem.
O Paulo perguntou-lhe apenas:
— Vai entregar o carro direitinho lá em Guimarães, certo?
— Sim, claro.
Então estava tudo tranquilo.
Dois dias depois, o carro chegou à oficina em Guimarães.
Durante todo o dia fizeram testes de diagnóstico e conduziram o carro, tentando perceber o que tinha acontecido.
Não encontraram qualquer avaria.
Ao final da tarde devolveram-no exatamente como tinha chegado.
Pelos vistos, naquele fim de semana, o carro decidiu simplesmente fazer uma pequena birra.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Voltámos uma segunda vez à zona de Alicante.
É provavelmente um dos lugares mais próximos onde conseguimos encontrar aquilo que procuramos numa praia: temperaturas acima dos 25 graus, pequenas calas sem multidões e pinheiros mansos quase a tocar na areia.
Era exatamente o tipo de lugar onde gostamos de estar.
Ficámos no Barceló e, à primeira vista, parecia uma boa escolha.
Até percebermos um pequeno problema.
As opções de restauração eram muito limitadas.
A partir de determinada hora, nem sequer era possível pedir um pequeno petisco no bar.
Para nós, isso acabou por ser mais importante do que parecia.
Não seguimos muito os horários tradicionais das refeições e gostamos que comer faça parte da experiência da viagem.
Não queremos simplesmente ir a um restaurante para cumprir uma obrigação.
Queremos descobrir um lugar, experimentar algo, criar uma memória.
E, naquela zona, não encontrámos nada que nos despertasse essa vontade.
No fim, a solução acabou por ser a mais simples.
Fomos ao Mercadona comprar comida.
E acabámos a jantar sandes de presunto.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Passeávamos por Alicante, pela promenade, quando começámos a ficar com fome.
Adentrámo-nos pelas ruas mais interiores e encontrámos um restaurante com uma esplanada muito agradável, numa daquelas praças onde apetece parar.
Estávamos na terra da paella, mais ou menos, e decidimos optar por ela.
Veio uma frigideira negra e baixinha, com uma camada de arroz igualmente baixinha.
Começámos a servir e rapidamente reparámos que o fundo estava um pouco queimado.
Chamámos o funcionário para alertá-lo para o facto de o arroz estar queimado.
Ele ouviu, olhou para nós e respondeu simplesmente:
— É mesmo assim que é bom.
Permito-me discordar.
Arroz queimado é arroz queimado.
Não é uma iguaria.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Voltámos a Corfu em 2024.
Desta vez ficámos num pequeno Airbnb, não muito longe de Paleokastritsa.
Num dos passeios pela ilha descobrimos a Taverna Notos.
Fica literalmente suspensa sobre a praia, distribuída por vários níveis, com uma vista magnífica e acesso direto a uma pequena enseada de águas transparentes.
Era o tipo de lugar onde um almoço se prolonga naturalmente.
Depois de comer, descemos até ao mar.
A água estava calma e cristalina.
Foi então que senti uma dor súbita no tornozelo.
Um peixe, que afinal não era assim tão pequeno, tinha decidido morder uma pequena ferida que eu tinha.
Durante alguns segundos, fui eu a continuação do almoço.
Não era exatamente essa a experiência gastronómica que tínhamos imaginado para Corfu.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Era o meu aniversário e queríamos fazer algo diferente. Decidimos transformar o dia numa pequena escapadinha: fomos até Lisboa, dormimos por lá e tentámos começar a manhã com um pequeno-almoço especial na Ladurée. Tínhamos visto que afinal existia uma em Lisboa, mas era apenas mais um daqueles erros que a internet consegue criar.
Seguimos então para o plano que tínhamos pensado: almoçar na Comporta e passar a tarde junto ao mar. Queríamos perceber o fenómeno, conhecer esse lugar tantas vezes associado a uma certa ideia de exclusividade e tranquilidade.
A praia era bonita e a água tinha aquela cor que convida a ficar. Mas acabámos por não entrar no mar. Preferimos alugar uma cabana junto à areia, procurando conforto e uma experiência mais cuidada com o apoio do JNcQUOI.
A expectativa era alta. O preço também. Mas a sensação final foi de que havia uma distância grande entre a imagem criada e aquilo que encontrámos.
A cabana, apesar de confortável, não trouxe aquele momento especial que imaginávamos. O serviço ficou aquém do esperado e o ambiente, longe de ser aquele refúgio exclusivo que associávamos ao conceito, era bastante mais movimentado, com várias famílias e crianças a partilhar o espaço.
No restaurante aconteceu algo semelhante. Não esperávamos fine dining, mas esperávamos qualidade. Um lugar com este posicionamento e estes preços não precisa de pratos sofisticados para impressionar — precisa de bons ingredientes, cuidado e atenção aos detalhes. E foi precisamente isso que sentimos faltar.
No final, a Comporta ficou para nós como uma dessas experiências em que o lugar é mais interessante na ideia do que na realidade. Bonita, sim. Mas sem aquele momento que transforma uma visita numa memória.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Mykonos surpreendeu-nos pelo vento.
O meltemi, o vento forte típico do Egeu, soprou com uma intensidade que não esperávamos.
Durante os quatro dias que lá passámos, esteve presente em todos, menos num.
Só nesse único dia consegui ir ao mar.
E a surpresa foi perceber que a água estava maravilhosa.
A temperatura era perfeita.
O problema não era o mar.
Era o vento.
Com aquela força, o mar ficava revolto, transformando completamente a imagem tranquila que tínhamos criado da ilha.
Talvez por isso tenham ficado na memória aquelas ondas violentas a bater contra a Little Venice.
Não foi o azul calmo do mar que dominou a recordação.
Foi a força do meltemi.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Fomos dar um saltinho a Lisboa e decidimos ficar no Estoril Palace, um hotel com história onde esperávamos encontrar aquele charme de outros tempos.
Na verdade, apesar de algum charme, era mais dated do que propriamente old time charm.
Ainda assim, tinha o seu encanto.
Durante o pequeno-almoço, a certa altura levantámo-nos da mesa para ir buscar mais alguma coisa ao buffet. Coisa normalíssima num hotel.
Quando regressámos, a nossa mesa tinha desaparecido.
Não tinham simplesmente retirado os pratos usados.
Tinham levantado tudo.
Mesa limpa, impecável, pronta para o próximo hóspede.
Há trabalho eficiente.
E há o staff do Estoril Palace.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Ficámos hospedados no Four Seasons, uma propriedade enorme, aninhada entre o mar e a selva.
Como tantas vezes acontece nestes lugares integrados na natureza, havia residentes habituais.
Entre eles estavam os dusky leaf monkeys, pequenos macacos de uma aparência quase irresistível. Com os seus olhos grandes e o ar tranquilo, pareciam sempre simpáticos visitantes.
Os quartos estavam distribuídos por vilas espalhadas pela propriedade e havia sempre fruta à nossa espera.
Era difícil resistir.
Eles aproximavam-se e estendiam as pequenas mãos, num gesto quase suplicante, como se soubessem exatamente o que estavam a pedir.
Até que um dia a fruta acabou.
Estávamos a descansar na varanda, de robe vestido, quando alguns voltaram a aproximar-se.
Sem grande alternativa, o Paulo encontrou uma solução improvisada.
Pegou num pacote de Pringles e começou a distribuí-las.
Com a mão esquerda segurava o robe junto ao peito e, com a direita, entregava solenemente uma batata a cada macaquinho que esperava de mãos estendidas.
A cena era tão absurda que tive de filmar.
Sem qualquer intenção, o Paulo tinha transformado a varanda numa pequena cerimónia religiosa.
Parecia um padre a distribuir hóstias pelos seus féis.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Numa tarde, decidimos caminhar pela longa praia em frente ao Four Seasons.
Eram quilómetros de areia praticamente sem ninguém.
Caminávamos tranquilamente quando começou a chover.
Nada de muito estranho naquela parte do mundo.
Mas havia algo diferente.
A chuva era fria.
Estranhamente fria.
E estávamos ainda longe do quarto.
A solução apareceu naturalmente: tirámos a roupa e entrámos no mar.
A água estava mais quente do que a chuva e acabou por funcionar como um abrigo confortável contra aquela surpresa tropical.
Foi então que começámos a ouvir trovões.
Ainda distantes.
Decidimos ficar mais um pouco na água e acompanhar a tempestade. A ideia era simples: observar a distância entre o relâmpago e o som e sair assim que percebessémos que se aproximava.
Parecia um bom plano.
Até deixar de ser.
De repente, um estrondo enorme.
O relâmpago e o trovão praticamente ao mesmo tempo.
Não houve mais análise, nem cálculos, nem contemplação.
Corremos.
Saímos da água o mais depressa possível e fizemos o caminho de volta ao quarto como se a nossa vida dependesse disso.
Depois do susto, só conseguimos rir.
Afinal, também são estes momentos inesperados que ficam de uma viagem.
—
—

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Para percorrer as estradas da Toscana alugámos um Fiat 500.
Na altura pareceu-nos o carro perfeito para aquela paisagem.
Era julho e fazia calor. Muito calor.
O carro não tinha ar condicionado, por isso todos os dias percorremos as estradas da Toscana com os vidros abertos.
Sentíamos o vento quente, o cheiro dos campos, os girassóis a perder de vista e aquele azul intenso do céu de verão.
Era uma forma diferente de viajar. Mais exposta, mais próxima da paisagem.
O hotel ficava no centro e não tinha estacionamento junto ao edifício, por isso era habitual alguém da equipa levar o carro para o estacionar e trazê-lo de volta quando precisávamos.
No dia da partida, como nos outros dias, alguém do staff foi buscar o carro.
Só depois percebemos o detalhe que nos tinha escapado.
O carro estava fresco.
Afinal, tinha ar condicionado.
Passámos todos aqueles dias a enfrentar o calor sem necessidade.
Mas, curiosamente, acabou por tornar a experiência mais rica.
Se tivéssemos viajado sempre dentro do conforto do ar condicionado, talvez tivéssemos visto a Toscana.
Assim, sentimos a Toscana.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Numa noite em Florença, a caminho do restaurante, passámos pelas arcadas dos Uffizi.
Foi então que ouvimos um violino.
O som espalhava-se pelas arcadas, ampliado pela própria arquitetura, enquanto a música preenchia aquele espaço histórico. Era uma daquelas situações em que o lugar e o momento pareciam perfeitamente alinhados.
Mais tarde, jantámos numa varanda sobre o rio Arno, com a lua a iluminar a noite.
Foi ali que provei spaghetti alle vongole pela primeira vez — um prato que acabou por se tornar um dos meus favoritos.
Entre a música nas arcadas, o rio e a luz da lua, Florença ficou associada a uma daquelas noites em que tudo parece acontecer no cenário certo.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Foi uma escapadela de agosto, apenas duas noites naquela zona da Suíça. Queríamos finalmente conhecer a tão falada St. Moritz e a pequena aldeia de montanha de Soglio.
Como não somos fãs de desportos de neve, aproveitámos o verão e os preços mais simpáticos dessa época para descobrir uma região normalmente associada ao inverno.
Ficámos alojados em Davos e fazíamos tudo de transportes públicos. Um dos luxos da Suíça.
Ao passearmos pela cidade, fomos surpreendidos por uma imagem completamente inesperada. Davos estava repleta de judeus ortodoxos. Reconhecíamos os homens pelos longos caracóis junto às têmporas, pela roupa tradicional e por uns chapéus que, na altura, só conseguíamos comparar a abat-jours.
Era uma visão quase irreal. Durante alguns minutos tivemos a sensação de ter atravessado não apenas um país, mas também uma época. Como se, sem aviso, tivéssemos entrado num lugar onde o tempo corria de maneira diferente.
Foi uma daquelas memórias improváveis que nunca esperaríamos guardar de uma estância alpina suíça.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Chegar ao Anantara Al Jabal Al Akhdar fazia-nos acreditar que íamos partir para uma verdadeira expedição.
Antes da subida existe um posto de controlo onde verificam se o veículo é adequado para enfrentar a estrada até ao topo do canyon. A mensagem era clara: sem um verdadeiro todo-o-terreno, não se sobe.
Sem conhecermos o percurso, não quisemos arriscar. Alugámos um jipe enorme.
A estrada revelou-se impecável.
A subida era inclinada, claro, mas nunca nos pareceu justificar um veículo daquela dimensão. Ficou a sensação de que a obrigatoriedade era mais rigorosa do que realmente necessária — ou talvez fosse apenas um excelente negócio para as empresas de aluguer de jipes.
A ironia apareceu no regresso.
Na descida percebemos que o verdadeiro desafio não era a estrada. Era controlar um jipe demasiado pesado para aquilo de que realmente precisávamos.
Lá em cima, porém, tudo se esquece.
O canyon é de uma escala difícil de explicar. Uma sucessão infinita de montanhas e ravinas onde o olhar nunca parece encontrar o fim. O hotel encaixa naquela paisagem de forma quase impossível.
E houve um detalhe que nunca conseguimos perceber. Todos os dias víamos membros do staff a transportar sofás, cadeiras e mesas de um lado para o outro. Nunca percebemos porquê. E, depois de tantos hotéis, nunca tínhamos visto nada parecido.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Numa daquelas viagens longas que tantas vezes fizemos pela Europa, saímos de Innsbruck ao cair da noite rumo a Viena.
Era uma estrada de montanha, sinuosa e praticamente sem iluminação. Durante quilómetros, a única luz que nos acompanhava era a da lua.
De repente, ambos nos sobressaltámos.
Ao lado da estrada erguiam-se gigantescas figuras brancas, imóveis, quase fantasmagóricas.
Só alguns segundos depois percebemos o que eram.
Não eram fantasmas.
Eram as próprias montanhas, completamente cobertas de neve, refletindo a luz da lua de uma forma quase irreal.
Durante horas fomos acompanhados por aqueles gigantes silenciosos.
Nunca mais voltámos a ver a neve ganhar vida daquela maneira.

Este hotel já não opera sob a marca Steigenberger — chama-se atualmente "Grandhotel Belvédère, Davos".

Imagem ilustrativa gerada por IA.
O Bimmah Sinkhole foi uma das paragens de um dia que dedicámos a descobrir um pouco do Oman.
É um daqueles lugares que parecem improváveis.
Uma enorme cratera de pedra calcária, com uma água azul-turquesa intensa no fundo.
Descemos as escadas até à água e entrámos naquele cenário quase surreal.
A surpresa foi perceber que a lagoa estava cheia de pequenos peixes.
Aproximavam-se imediatamente, curiosos, nadando à nossa volta.
Tão curiosos que começaram a mordiscar tudo o que encontravam.
Incluindo alguns sítios menos convenientes.
O Paulo acabou por ser vítima de uma atenção especial dos pequenos habitantes da lagoa.
O cenário era magnífico.
A experiência, inesquecível.
Embora talvez não exatamente da forma que tínhamos imaginado.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Estávamos na terceira semana de agosto. Verão, dir-se-ia.
Pegámos em dois daqueles passes diários disponíveis para quem vive na Suíça e fomos descobrir uma das regiões mais bonitas dos Alpes, entre Davos e St. Moritz.
Num dos dias, a ideia era subir até Soglio e encontrar aquelas vistas de montanha que tantas vezes tínhamos visto em fotografias.
Fomos de autocarro.
A estrada sinuosa, agarrada à montanha, já fazia parte da experiência. Havia qualquer coisa de mágico naquela subida, uma mistura de expectativa e descoberta. Mas, à medida que avançávamos, o céu fechava-se cada vez mais e a chuva parecia próxima.
Quando chegámos, Soglio estava mergulhada em nevoeiro.
Vistas, nada.
No regresso a Davos, o autocarro fez uma breve paragem e o condutor, ao ouvir-nos falar, meteu conversa. Era português.
Comentámos a nossa desilusão com o tempo e com a falta das vistas que tínhamos imaginado. A resposta dele foi simples: \u201cClaro. O que estavam à espera? Estamos no fim de agosto.\u201d
Sim, agosto. E por isso esperávamos verão.
Um verão ainda quente em Genebra, onde nessa altura a estação estava plenamente instalada. Mas ali, no alto da montanha, no coração da Suíça, percebemos que o verão tinha outro calendário.
Na montanha, o verão acaba mais cedo.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Bucareste entrou numa das nossas viagens de Ano Novo, seguindo uma tradição que tivemos durante alguns anos: aproveitar a passagem de ano para conhecer uma nova cidade.
Depois de um agradável jantar, apanhámos um táxi de regresso ao hotel.
Nas ruas havia uma energia contagiante. Pessoas de todas as idades celebravam o novo ano, enchendo a cidade de movimento e alegria.
Até que, de repente, foguetes explodiram no passeio mesmo ao lado do carro.
O susto foi enorme.
A fronteira entre uma celebração entusiástica e algo quase caótico pareceu, naquele momento, muito pequena. Para nós, aqueles festejos tinham uma intensidade pouco habitual — mais próximos de uma explosão coletiva de energia do que de uma noite organizada de Ano Novo.
Mas Bucareste marcou-nos também pela sua beleza.
Ao percorrer a cidade, é impossível não imaginar o que terá sido no seu auge. Os edifícios monumentais, os grandes boulevards e as fachadas elegantes fazem perceber porque, no passado, Bucareste ganhou o apelido de “Paris do Leste”.
Hoje, porém, essa grandiosidade mistura-se com sinais de abandono. É quase doloroso ver edifícios que um dia foram magníficos cobertos pelas marcas do tempo, com fachadas perfuradas para instalar aparelhos de ar condicionado, como pequenas cicatrizes numa beleza que ainda está lá.
Bucareste ficou-nos assim: uma cidade de contrastes, onde a elegância do passado e a intensidade do presente vivem lado a lado.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Atenas nunca fez verdadeiramente parte dos planos.
Uma das nossas viagens de Ano Novo tinha como destino Bucareste e Sofia, mas a falta de voos diretos entre as duas capitais obrigou-nos a fazer um desvio pela capital grega.
Foi um daqueles acasos de viagem que acabam por valer a pena.
Nessa noite jantámos com vista para a Acrópole iluminada.
Nunca subimos. Nunca enfrentámos filas nem multidões. Limitámo-nos a vê-la dali, elevada sobre a cidade, iluminada contra o céu da noite.
E, sinceramente, não sei se poderia ter havido melhor forma de a conhecer.
O jantar, esse, ficou também na memória por uma razão bem diferente.
Foi ali que descobri, de forma definitiva, que não gosto mesmo de trufas. A massa voltou para trás uma vez. Depois outra. E ainda uma terceira, até desaparecerem completamente do prato.
No fim, acabámos por guardar duas memórias de Atenas: uma das vistas mais bonitas da viagem e a confirmação de um ingrediente que nunca mais voltei a pedir.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Sófia foi o terceiro e último destino daquela viagem de Ano Novo, depois de Bucareste e Atenas.
Chegámos de manhã e regressávamos ao final do dia. Tínhamos apenas algumas horas para conhecer a cidade.
Em vez de corrermos de um monumento para outro, fizemos algo diferente.
Alugámos um serviço de limousine.
Foi uma daquelas decisões completamente desnecessárias — e precisamente por isso divertida.
Durante um dia inteiro fomos percorrendo Sófia sem pressa, entrando e saindo do carro sempre que nos apetecia, descobrindo a cidade ao nosso ritmo, sem mapas, sem horários e sem a preocupação de perceber transportes ou encontrar estacionamento.
Foi uma forma diferente de viajar.
Ao cair da noite, voltámos ao aeroporto.
Não foi a cidade onde passámos mais tempo. Mas foi, provavelmente, a única onde alguma vez tivemos um motorista à nossa espera durante todo o dia.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Sveti Stefan fazia parte daqueles lugares que conhecíamos antes de lá chegar.
Durante anos, aquela pequena ilha ligada à costa, com as suas casas de pedra e a água azul a toda a volta, pertenceu ao nosso imaginário de lugares especiais.
Estávamos em Dubrovnik e aproveitámos para fazer uma escapadela de um dia até Montenegro.
Fomos de carro e, como era esperado, encontrámos filas na fronteira. Quando chegou finalmente a nossa vez, tivemos uma surpresa inesperada: no posto fronteiriço estava um elemento da GNR portuguesa.
Só mais tarde descobrimos que estes intercâmbios entre forças policiais são relativamente habituais, mas naquele momento parecia uma pequena coincidência impossível no meio da viagem.
Continuámos pela Baía de Kotor, onde a própria estrada já era uma experiência. Pelo caminho, parámos algumas vezes para ir ao mar e aproveitar aquela água magnífica que faz parte da identidade desta região.
Quando chegámos a Sveti Stefan, ainda pensámos em viver a experiência completa e alugar uma espreguiçadeira na praia do Aman. Mas 100€ por pessoa pareceu-nos demasiado para aquilo que realmente procurávamos.
Porque, naquele momento, percebemos que o essencial já estava ali.
A melhor vista era precisamente aquela que não precisava de pagar nada.
Ficámos simplesmente a olhar.
A ilha, a baía e o contraste entre a pedra e aquele azul intenso estavam diante de nós, acessíveis, sem reservas nem bilhetes.
No fim, Montenegro ficou-nos assim: um lugar que durante anos imaginámos, uma paisagem que confirmou todas as expectativas e uma pequena surpresa portuguesa pelo caminho.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Há memórias que não são grandes acontecimentos.
São pequenos detalhes que, somados, acabam por definir um país.
No México, eram os pequenos altares dedicados à Nossa Senhora de Guadalupe, presentes em quase todas as lojas, lembrando que a fé fazia parte do quotidiano.
Eram as carrinhas blindadas que recolhiam as esmolas da catedral com a mesma segurança usada para transportar dinheiro de um banco.
Era o arroz servido por todo o lado com as cores da bandeira mexicana, como se até um acompanhamento pudesse ser uma afirmação de identidade.
E eram também as carrinhas do gás que percorriam lentamente as ruas, anunciando a sua chegada através de altifalantes que repetiam vezes sem conta:
— ¡El gas! ¡El gas!
Ao princípio parecia estranho. Poucos dias depois já fazia parte da banda sonora da cidade.
Nenhum destes detalhes, por si só, justificaria uma viagem.
Mas são precisamente estas pequenas imagens que permanecem connosco muitos anos depois, quando quase tudo o resto já se desvaneceu.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Não nos lembramos de muitos detalhes de Guadalajara. Já passaram muitos anos. Mas há uma memória que nunca desapareceu.
Um amigo que vivia na Cidade do México foi buscar-nos de carro ao local onde estávamos hospedados, em casa de outros amigos.
Quando regressámos ao carro, os espelhos retrovisores tinham desaparecido.
A nossa reação foi de espanto. A dele, nem por isso.
Sem dramatizar, foi falar com uns miúdos ligados a um gangue da zona. Explicou a situação, conversou durante alguns minutos e, pouco depois, os espelhos apareceram outra vez.
Não houve polícia, participação ao seguro nem grandes discussões.
Havia simplesmente uma forma de resolver o problema que para nós era completamente incompreensível.
Foi um daqueles momentos em que percebemos que viajar também é descobrir que o mundo nem sempre funciona segundo as mesmas regras.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Num dos dias decidimos ir a pé até ao centro de Guadalajara.
Não era longe. Passeámos sem pressa, como tantas vezes fazemos quando queremos conhecer uma cidade.
Mas, de repente, o céu escureceu.
Começou a chover.
E depois começou a chover ainda mais.
Quando percebemos que aquela tempestade não ia passar tão cedo, chamámos um táxi.
O motorista deixou-nos exatamente em frente da casa dos nossos amigos.
Foi literalmente abrir a porta do táxi, dar dois passos e tocar à campainha.
Menos de dois minutos depois, a porta abriu-se.
O nosso amigo olhou para nós, completamente encharcados, e perguntou, genuinamente intrigado:
— Mas porque é que vieram à chuva?
Sorrimos.
Na verdade, não tínhamos vindo à chuva.
Só tínhamos caminhado os dois metros entre o táxi e a porta.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Quando fomos visitar Teotihuacán, sabíamos que estávamos perante um daqueles lugares que parecem pertencer a outro tempo.
As pirâmides impressionavam pela dimensão. Subir aqueles degraus exigia esforço. Eram dezenas, talvez centenas, até chegar ao topo.
Mas, lá em cima, havia algo que não esperávamos encontrar.
Um cão vadio.
Ali, no ponto mais alto de uma das pirâmides, estava simplesmente um cão, tranquilo, como se aquele fosse o lugar mais natural do mundo.
Ainda hoje não sabemos como chegou lá.
Não sabemos se subiu sozinho, se acompanhou alguém ou se apenas escolheu aquele lugar para descansar.
No meio de uma das maiores construções da antiga civilização mexicana, era aquela presença inesperada que nos prendia o olhar.
Às vezes, são estes pequenos momentos sem explicação que ficam mais tempo na memória do que aquilo que fomos visitar.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Na Cidade do México percebemos uma escala difícil de imaginar antes de lá chegar.
Os taxistas circulavam com verdadeiros mapas da cidade. Não por curiosidade, mas por necessidade. A extensão era tanta que conhecer todas as ruas era praticamente impossível.
Mesmo vista do alto, parecia não haver um fim.
Um dos momentos em que sentimos verdadeiramente essa dimensão foi quando fomos visitar Teotihuacán.
As pirâmides ficavam a cerca de setenta quilómetros do centro da cidade.
Para nós, essa distância significava deixar a cidade para trás.
Mas isso nunca aconteceu.
Durante todo o caminho, continuámos rodeados pelo mesmo imenso tecido urbano. A cidade prolongava-se em todas as direções, como se recusasse terminar.
Foi nesse percurso que percebemos verdadeiramente a dimensão da Cidade do México.
Não era apenas uma grande cidade.
Era uma cidade que parecia não acabar.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Entrar no Casino de Monte Carlo nunca foi sobre jogar.
Foi sobre entrar num lugar onde a arquitectura, a arte e a elegância ainda parecem pertencer a outra época.
Adorámos o edifício, os detalhes, a atmosfera. Há ali uma sensação rara de grandiosidade sem ser apenas ostentação: espaços pensados para impressionar e para fazer parte da experiência.
Um dos maiores encantos eram os quadros de Lawrence Alma-Tadema, um dos nossos pintores favoritos, integrados naquele ambiente tão improvável.
Ver obras que tanto admirávamos naquele cenário tornou a visita ainda mais especial.
Voltámos várias vezes.
Não para jogar, mas para experimentar aquele lugar. Entrar, percorrer as salas, sentir a elegância, imaginar as histórias que aquelas paredes guardavam.
Mas, curiosamente, acabámos também por levar connosco uma pequena história de casino.
Num desses dias, a sorte decidiu aparecer e saímos de lá com 600 €.
Não era esse o motivo pelo qual íamos ao Casino de Monte Carlo.
Mas acabou por ser uma forma divertida de completar a experiência.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
O Louis XV, de Alain Ducasse, em Monte Carlo, foi uma experiência em que tudo parecia acontecer no momento certo.
Tudo começava na sala. Um espaço Art Déco lindíssimo, onde o antigo e o moderno conviviam com uma naturalidade impressionante. A elegância estava em todos os detalhes, até na distância generosa entre as mesas, que criava a sensação de estarmos quase sozinhos.
Mas foi o serviço que mais nos marcou.
Não era apenas eficiente.
Era uma verdadeira dança.
Os movimentos do staff, perfeitamente coordenados, os timings entre cada momento, a forma como tudo acontecia sem nunca parecer apressado ou mecânico — havia uma coreografia invisível a decorrer à nossa volta.
E depois vinha a comida.
Obviamente maravilhosa, mas mais do que isso: surpreendente. Explosões de sabor, combinações inesperadas e uma delicadeza difícil de descrever em cada prato.
No final, o que ficou não foi apenas a memória de uma refeição extraordinária.
Foi a sensação de termos assistido a algo cuidadosamente ensaiado, onde cada pessoa sabia exactamente o seu papel e, ainda assim, tudo parecia acontecer naturalmente.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
A Madeira surpreendeu-nos.
Muito mais encantadora do que esperávamos. Muito mais diversa.
As estradas sinuosas do Curral das Freiras, a vista quase de satélite do Cabo Girão, as piscinas naturais de Porto Moniz, as levadas que por momentos quase nos faziam sentir no Bali — a ilha tinha uma variedade de paisagens que não estávamos à espera de encontrar.
Mas a memória que ficou foi de uma situação muito menos paradisíaca.
Numa das estradas da ilha, a faixa contrária à nossa estava ocupada por um carro mal estacionado. Pelas regras do trânsito, tínhamos prioridade: quem tinha a faixa impedida deveria esperar pela passagem dos outros veículos.
Mas não foi isso que aconteceu.
Uma condutora muito convicta decidiu avançar pela nossa faixa. Ficámos frente a frente, parados, num autêntico duelo mexicano: dois carros, nenhum disposto a ceder.
Nós tínhamos razão — pelo menos era essa a nossa convicção.
Só que, entretanto, começou a formar-se uma pequena multidão à nossa volta. Os olhares não eram propriamente de incentivo. Havia uma intensidade e uma pressão silenciosa que rapidamente nos fizeram perceber que talvez não valesse a pena ganhar aquela batalha.
Acabámos por recuar.
Demos passagem à condutora e seguimos viagem.
A Madeira continuou a ser uma das maiores surpresas daquela viagem. Mas, além das paisagens incríveis, ficou também esta pequena memória: uma lição de que, às vezes, numa estrada desconhecida, nem sempre vence quem tem razão. Às vezes vence quem consegue reunir mais apoio à sua volta.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Foi numa das nossas primeiras viagens, ainda recém-casados.
Passeávamos pelas ruas de Florença com alguns amigos quando o olhar do Paulo se prendeu a algo no chão.
Era um pedaço de notas esquecido no meio da rua.
Naquele tempo, uma quantia que, para nossa surpresa, acabou por ser suficiente para pagar o jantar de todos.
Foi uma daquelas pequenas coincidências de viagem que ficam na memória não pelo valor em si, mas pela história que criaram.
Naquela noite, Florença ofereceu-nos o jantar.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
A Costa Amalfitana tinha tudo para ser uma viagem perfeita. As imagens das pequenas localidades agarradas às encostas, das estradas suspensas sobre o mar e das águas azuis fazem dela um dos cenários costeiros mais bonitos do mundo.
E era Itália. O nosso eterno amor. Talvez por isso as expectativas fossem ainda maiores.
Ficámos num Airbnb bastante peculiar, daqueles lugares com personalidade própria. A dona recebeu-nos com uma simplicidade que acabou por ser uma das melhores memórias da viagem: ofereceu-nos legumes da sua própria horta. Com eles preparámos uma bela frittata, uma refeição simples que ficou ligada àquele lugar.
Fomos em setembro, já fora da época mais concorrida, esperando encontrar uma costa mais tranquila. Mas a realidade foi diferente. Ainda havia demasiados turistas, as famosas estradas serpenteantes estavam constantemente congestionadas e o cheiro dos escapes fazia parte da paisagem.
Era difícil conciliar o cenário que tínhamos imaginado com aquilo que encontrávamos.
A beleza estava lá. As curvas impossíveis das estradas pelas encostas, as montanhas a descer até ao mar e as vistas grandiosas que justificam toda a fama. Mas também estavam lá os autocarros demasiado grandes para aquelas vias estreitas, o trânsito e a sensação de que um lugar tão extraordinário estava a ser esmagado pelo próprio sucesso.
Na mesma viagem fomos até Capri, uma ilha que durante anos associámos a uma ideia de elegância, glamour e luxo italiano.
Mas a realidade voltou a ser diferente.
Capri tinha charme, claro. Os limoeiros, as vistas, a localização privilegiada no Mediterrâneo. Mas também encontrámos uma ilha mais desorganizada do que imaginávamos, com sinais de decadência em algumas casas, alguma falta de cuidado e, mais uma vez, o inevitável cheiro dos escapes a interromper o encanto.
Ficámos à procura da Capri que existia no nosso imaginário. Onde estavam os grandes hotéis, aqueles nomes que associamos à ilha? O Punta Tragara, o Quisisana?
A resposta era simples: estavam todos concentrados numa única rua. A única que parecia corresponder à imagem que tínhamos trazido connosco.
Era pouco. Muito pouco.
Enquanto bebíamos um refresco nessa rua, reparámos numa jovem que caminhava descontraidamente. Era extremamente elegante, vestida claramente com peças de designer, com uma presença quase de modelo. Durante alguns instantes pareceu trazer consigo aquela Capri sofisticada que esperávamos encontrar.
Pouco tempo depois, voltou a passar, agora no sentido contrário.
Olhámos um para o outro e sorrimos. Talvez fizesse parte do cenário. Talvez fosse precisamente aquela imagem que faltava para completar o postal que tínhamos vindo procurar.
No final, a Costa Amalfitana e Capri deixaram-nos uma sensação curiosa: a beleza continua lá, impossível de negar. Mas alguns lugares tornam-se tão famosos pela imagem que criaram que, quando finalmente os visitamos, percebemos que o sonho e a realidade nem sempre viajam juntos.
E, por vezes, as melhores memórias acabam por surgir longe do postal — como uma simples frittata feita com legumes oferecidos por uma desconhecida.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Houve uma época em que descobrimos uma forma diferente de viajar.
Vivíamos na Suíça e havia uma coisa que nos fazia alguma confusão: os legumes eram caros e, para nós, nem sempre tinham o sabor que esperávamos.
Como dizia uma personagem de um filme sobre os legumes em Inglaterra, às vezes parecia que lhes faltava "alma".
Com os voos baratos da easyJet e os preços dos alojamentos no sul da Europa, começámos a aproveitar os fins de semana de outra forma.
A cada dois meses, mais ou menos, escolhíamos uma cidade para visitar.
Duas malas de cabine.
Uma com roupa.
Outra vazia.
O plano era simples: uma noite ou duas fora, voos baratos, sol, passeios pela cidade e uma visita ao mercado local antes de voltar.
A segunda mala regressava sempre diferente.
Cheia de legumes.
Um dia, um amigo alemão foi jantar a nossa casa e perguntou-nos onde comprávamos aqueles legumes.
Talvez no Migros? No Coop?
Respondemos simplesmente:
— Estes? Em Valência.
Para nós era perfeitamente normal.
Para ele, nem por isso.
No fim, algumas das melhores recordações de viagem não vêm apenas dos lugares que conhecemos, mas das pequenas formas que encontramos para os trazer connosco.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Foi numa daquelas aventuras que antes fazíamos: percorrer meia Europa de carro num só dia.
Chegámos a Český Krumlov perto das nove da noite, numa noite de inverno, cheios de fome.
A primeira visão da vila parecia saída de um conto de fadas: o castelo iluminado pela luz da lua, pequenos flocos de neve a cair, as ruas medievais quase desertas — como se alguém tivesse parado o tempo naquele instante.
Mágico.
Mas de magia não vive o homem. Precisávamos de comer.
Fomos à procura de um restaurante. Percorremos as ruas do centro, uma após outra, à procura de algum lugar ainda aberto. Mas tudo estava fechado. Não havia um único sítio onde jantar.
E assim saímos daquela charmosa vila medieval exatamente como tínhamos chegado: encantados com a beleza, mas com fome.
O jantar de Český Krumlov ficou para sempre como aquele que não existiu.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
O Széchenyi é daqueles lugares que parecem ter ficado de outra época.
O enorme complexo termal, com a sua arquitetura amarela e aquele charme de outros tempos, faz-nos imaginar uma época mais gloriosa, quando as termas eram também um lugar de encontro e de vida social.
Percorremos várias salas e piscinas.
Até que, numa delas, reparámos em dois senhores já com alguma idade.
Tinham um ar entroncado, braços cruzados e caminhavam lado a lado dentro da piscina.
De uma ponta à outra.
Depois voltavam.
De uma ponta à outra.
E outra vez.
Conversavam tranquilamente enquanto faziam aquilo que pareciam ser umas voltas na piscina.
Só que caminhando.
Não havia pressa, nem exercício visível, nem qualquer razão aparente para aquilo.
Era simplesmente a maneira como aqueles dois senhores tinham decidido fazer as suas voltas.
Ficámos a olhar, fascinados.
E ainda hoje, quando pensamos nas termas de Budapeste, é deles que nos lembramos.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Durante a nossa estadia no Mandapa, a Ritz-Carlton Reserve, fizemos uma das experiências propostas pelo hotel: um passeio num Volkswagen clássico pelos arredores de Ubud.
Eu estava em convalescença.
E, de certa forma, isso acabou por definir o ritmo daquele dia.
Sem pressas, fomos percorrendo uma Bali mais tranquila, entre arrozais, templos e pequenas aldeias, num daqueles passeios em que o caminho é tão importante quanto os destinos.
Os arrozais foram talvez o momento mais marcante.
Uma beleza quase irreal: o verde intenso, a água, a luz, a humidade no ar. Tudo parecia demasiado perfeito para ser verdadeiro.
Seguimos depois para um templo, onde a água estava presente por todo o lado. Debaixo dos repuxos, pessoas lavavam a alma nos seus rituais de purificação, numa imagem de grande serenidade e espiritualidade.
Terminámos com uma prova do famoso café Kopi Luwak.
A curiosidade estava mais no processo de produção, pouco ortodoxo, do que propriamente no resultado. Quanto ao sabor, sinceramente, não nos impressionou.
Mas o café nunca foi o mais importante daquele dia.
O que ficou foi a forma calma como percorremos Bali, deixando que a paisagem e a cultura aparecessem sem pressa.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
A nossa viagem por Bali estava dividida entre dois hotéis: quatro noites no Oberoi e duas noites no Mandapa, a Ritz-Carlton Reserve.
Mas os planos mudaram rapidamente.
Ao segundo dia fiquei muito doente. Febre alta, náuseas constantes e dores no corpo que me deixaram completamente de cama.
Há uma frase que repetimos muitas vezes desde então.
A estar doente, que seja num Oberoi.
Durante dias, nunca nos sentimos sozinhos.
O hotel tinha um protocolo com uma clínica local e, a qualquer hora do dia ou da noite, bastava um telefonema para um médico aparecer no quarto. Chamámo-lo três vezes.
Todos os dias me deixavam um ramo de flores com votos de rápidas melhoras.
Chegaram até a oferecer o jantar ao Paulo, que acabava por passar os dias sozinho enquanto eu permanecia fechada no quarto.
Percebemos rapidamente que não estava em condições de seguir viagem na data prevista para o Mandapa e prolongámos a estadia no Oberoi por mais três noites.
Ao terceiro médico surgiu uma hipótese mais preocupante: dengue.
Era preciso fazer análises.
A clínica podia recolher o sangue no hotel, mas os resultados demorariam cerca de uma semana. No hospital estariam prontos em poucas horas.
Para evitar que tivesse de esperar nas urgências, o médico sugeriu que fosse de ambulância, já ligada ao soro. Assim seria admitida imediatamente.
Aceitei.
Com a ajuda do staff do Oberoi, entrei na ambulância, deitada, ligada ao soro, cheia de dores e completamente enjoada.
Foi nessa altura que aconteceu a única cena verdadeiramente cómica daqueles dias.
O Dr. Yogi, um homem simpático e bastante corpulento, entrou na ambulância... e a porta deixou simplesmente de fechar.
Tentaram uma vez.
Depois outra.
Só à terceira tentativa, com bastante esforço, conseguiram finalmente fechar a porta daquela carrinha adaptada a ambulância.
Mesmo naquele estado, tive de fazer um enorme esforço para não me desatar a rir.
No hospital, tudo aconteceu exatamente como o médico tinha prometido.
Fui imediatamente encaminhada para uma cama, protegida por uma cortina, onde esperei apenas alguns minutos pelas análises.
Do outro lado dessas cortinas ouviam-se choros, pedidos de ajuda e pessoas que esperavam havia horas para serem atendidas.
Foi impossível não perceber que aquela não era a experiência normal daquele hospital.
Era a experiência de quem tinha tido a sorte de adoecer enquanto estava hospedado num Oberoi.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Em junho de 2019 fomos passar uma semana à Riviera francesa. Alugámos um Airbnb num edifício de estilo Haussmann, uma arquitetura que sempre adorámos.
A ideia era mais do que uma viagem: queríamos experimentar como seria viver por aqueles lados na reforma.
Quem não sonha com reformar-se na Riviera francesa ou na Provença? Sul, mar e luz. O imaginário perfeito para quem vive no centro da Europa — como era o nosso caso na altura.
Tentámos alugar um apartamento nas condições em que o faríamos numa hipotética reforma naquela região. Escolhemos Nice, a principal cidade, com aeroporto e todas as comodidades que imaginávamos precisar.
Em poucos dias percebemos que o sonho e a realidade são coisas diferentes.
Gostámos de Nice. Gostámos da arquitetura, das fachadas, da atmosfera mediterrânica. Mas percebemos também que, para viver, havia uma coisa essencial que nos fazia falta: espaço verde.
Habituados aos inúmeros parques e jardins de Genebra, Nice pareceu-nos mais árida. Não era uma questão de beleza — era uma questão de estilo de vida.
Ainda visitámos Menton e Grasse, e continuámos a gostar do que vimos. Mas encontrámos a mesma dificuldade: faltavam aqueles lugares onde simplesmente se pode estar.
Relvados onde deitar, fazer um piquenique, ler um livro. Espaços sem um objetivo definido. Lugares onde não é preciso visitar, ver ou procurar nada.
Apenas estar.
Foi essa a verdadeira descoberta daquela viagem. A Riviera francesa continuava encantadora, mas percebemos que amar um lugar não significa necessariamente querer viver nele.
Às vezes, uma viagem não serve para encontrar uma nova casa. Serve para confirmar aquilo que valorizamos na que já temos.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Foi a nossa primeira visita a Corfu.
Hoje é a nossa ilha favorita na Grécia.
O que amamos em Corfu? Precisamente o encontro improvável de dois mundos que adoramos: a Itália e a Grécia.
A arquitectura veneziana, as fachadas da cidade, os ciprestes espalhados pelas colinas. Não aqueles alinhados em perfeita ordem ao longo das estradas serpenteantes da Toscana, mas desalinhados pela paisagem, quase como um cabelo despenteado pelo vento.
E depois há o mar.
O azul profundo da Grécia, acessível de todos os lados. Porque na Grécia não é preciso uma praia para ir ao mar. Cada canto, cada pequena enseada, cada recanto junto à estrada pode ser o lugar perfeito para parar, mergulhar e aproveitar aquela água de cor quase irreal e temperatura perfeita.
Até na cidade o mar faz parte da experiência.
É o caso do Imabari Beach Bar, onde se pode comer, beber e nadar sem sair da cidade. Não é o típico beach club na areia. É outra coisa: um espaço construído na rocha e no cimento, virado directamente para aquele mar que define Corfu.
Um lugar onde percebemos que, na Grécia, o mar nunca está separado da vida.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Mürren foi mais uma das muitas visitas que fizemos ao Bernese Oberland.
Desta vez, fomos acompanhados pela minha sogra.
Caminávamos tranquilamente pela montanha, rodeados daquele cenário que já conhecíamos tão bem: os Alpes, as pastagens e as vacas suíças a fazerem parte da paisagem.
Pelo caminho passámos por algumas zonas delimitadas por cercas elétricas, usadas para manter o gado dentro das áreas de pastagem.
Nada que parecesse especialmente relevante.
Até deixar de ser.
A minha sogra teve a infelicidade de ficar demasiado perto da cerca.
E descobriu da pior forma que aquelas pequenas barreiras tinham uma função muito concreta.
Estava eletrificada.
O susto foi grande.
A paisagem continuava perfeita, as montanhas continuavam imponentes, as vacas continuavam tranquilas.
Mas naquele momento a memória de Mürren ficou associada a uma coisa muito mais simples:
uma cerca suíça que decidiu deixar a sua marca.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Fomos a Sevilha em março, numa altura em que a cidade ainda tinha aquele clima ameno que torna os passeios pelas ruas uma experiência perfeita.
Ficámos no emblemático Hotel Alfonso XIII, um dos grandes símbolos da cidade.
Numa das noites, depois do jantar, caminhávamos sem pressa pelas ruas de Sevilha, aproveitando a atmosfera da cidade. Ao atravessarmos um pequeno jardim, já com pouca luz, fomos abordados por um homem que nos pediu dinheiro.
Não foi agressivo nem ameaçador. O pedido foi feito de forma tranquila, mas naquele cenário — um jardim quase vazio, à meia luz, e uma abordagem inesperada — a situação pareceu-nos estranha.
Decidimos dar-lhe voluntariamente 10€. Ele agradeceu, despediu-se e seguiu o seu caminho.
Até hoje ficámos sem perceber: terá sido um assalto discreto ou simplesmente alguém a pedir ajuda?

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Roma foi mais uma daquelas escapadelas de fim de semana que começámos a fazer na Suíça.
O objetivo era simples: viajar barato, aproveitar uma cidade do sul e voltar com a mala cheia de legumes.
Ficámos num Airbnb com estilo e fizemos aquilo que mais gostamos de fazer em cidades como Roma: andar sem rumo pelas ruas, descobrir cantos ao acaso e deixar a cidade acontecer.
Num desses passeios parámos numa esplanada simpática.
Toalhas de quadrados vermelhos e brancos nas mesas.
Um cenário que parecia saído de uma imagem clássica de Itália.
Sentámo-nos e pedimos um copo de vinho.
Tudo perfeito.
Tudo Itália.
Até provarmos o vinho.
Era horrível.
Não havia muito a fazer.
Levantámo-nos e fomos pagar.
O senhor olhou para nós, surpreendido, com os copos ainda praticamente cheios na mesa.
O Paulo limitou-se a dizer:
“Horribili.”
E saímos.
Nem todo o vinho italiano merece uma história bonita.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Há fotografias que guardam mais do que um lugar. Guardam um momento da vida que só mais tarde percebemos ser irrepetível. Foi isso que aconteceu no Lago Thun.
Conhecemos o António em Dublin, pouco tempo depois de chegarmos à Irlanda. Ainda vivíamos entre hotéis, à procura de casa, quando um desconhecido ouviu-nos falar português num autocarro e decidiu meter conversa.
Naquela altura, não procurávamos companhia. Tínhamos acabado de deixar Portugal para trás e não sentíamos qualquer vontade de nos aproximar da comunidade portuguesa. Mas o António insistiu apenas o suficiente para nos convencer a aceitar um café.
Foi o início da amizade mais linda que tivemos.
Uma amizade sem amarras, sem obrigações, sem datas a celebrar. Numa época em que as redes sociais ainda não faziam parte da vida de ninguém, bastava um telefonema quando surgia a vontade. Um latte no centro de Dublin, um jantar em nossa casa ou simplesmente uma conversa que se prolongava pela noite dentro.
Solteiro, apreciava o conforto de um lar e o prazer simples de uma refeição preparada com carinho. E, sendo um verdadeiro gentleman, tinha sempre as histórias mais improváveis para contar sobre o spa onde trabalhava, no norte de Dublin.
Tinha um sonho: navegar durante seis meses pelo Mediterrâneo, livre.
Chegou a comprar um barco para recuperar.
Nunca chegou a fazê-lo.
No ano anterior à sua morte veio visitar-nos à Suíça. Entre vários passeios, fomos até ao Lago Thun. Passámos um dia maravilhoso, sem imaginarmos que seria a última vez que estaríamos juntos.
Morreu em fevereiro do ano seguinte, subitamente, com apenas 42 anos.
Hoje, quando penso no Lago Thun, não penso primeiro na paisagem.
Penso no António.
E em todos os sonhos que ficaram por navegar.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Um dia lemos um post turístico que aconselhava os visitantes a ficar por Lugano em vez de ir até Itália.
A justificação era curiosa: Lugano seria uma espécie de versão italiana mais segura, mais organizada e mais previsível.
Rimo-nos.
Porque, apesar do caos tão característico de Itália, nunca foi um país que associássemos a insegurança ou que nos impedisse de viajar por lá.
Mas a comparação tinha um fundo de verdade.
Lugano tem tudo aquilo que nos lembra Itália: as cores, a arquitectura, as varandas, as casas, a paisagem mediterrânica e a presença constante do lago.
Mas tudo parece mais cuidado.
As fachadas não têm aquele ar gasto pelo tempo, as casas não mostram sinais de abandono, as ruas são impecáveis e tudo funciona com a precisão suíça.
Até a água parece diferente: os lagos suíços têm uma transparência cristalina, enquanto muitos lagos italianos têm aquele tom mais escuro e profundo.
É como se alguém tivesse pegado numa paisagem italiana e a tivesse colocado sob a disciplina suíça.
E talvez seja precisamente isso que torna Lugano tão especial.
É uma cidade lindíssima, com uma paisagem extraordinária, onde a beleza italiana encontrou a organização suíça.
Mas há uma diferença subtil que se sente.
As cores estão lá, a arquitectura está lá, o ambiente mediterrânico está lá.
Só falta aquele pequeno caos, aquela imperfeição, aquela espontaneidade que fazem parte da alma italiana.
Lugano não é Itália.
É outra coisa.
E essa diferença não lhe tira beleza nenhuma.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
A primeira imagem que guardamos do Lago Lucerna não veio da água.
Veio do alto.
A subida ao Monte Pilatus leva-nos a 2.132 metros de altitude, a um mundo onde a escala das coisas muda completamente. O lago, que lá em baixo parece imenso, transforma-se numa fita azul que serpenteia entre montanhas, enquanto os Alpes se estendem em todas as direções.
A subida é parte da magia. À medida que se ganha altitude, a paisagem vai mudando lentamente: as margens do lago ficam mais distantes, as montanhas tornam-se mais imponentes e o silêncio começa a dominar.
No topo, especialmente quando a neve cobre a montanha, a sensação é quase de estar noutro lugar. O branco das encostas, o ar frio e a luz intensa criam uma paisagem de uma beleza quase irreal.
Lá em baixo, o Lago Lucerna parece perfeitamente encaixado entre os picos que o rodeiam. Cá em cima, percebe-se a verdadeira dimensão daquela paisagem: um lago de um azul profundo protegido por uma cadeia de montanhas majestosas.
Foi a nossa primeira visão daquele cenário.
E talvez por isso tenha ficado tão marcada.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Nunca fomos a Annecy para conhecer Annecy.
Fomos vezes sem conta, quase sempre durante o verão, mas depressa percebemos que a cidade tinha um problema: demasiadas pessoas.
Por isso, criámos a nossa própria rotina.
Começávamos por comprar umas sandes numa pequena casa junto ao lago. Depois alugávamos um barco e afastávamo-nos da margem.
Era aí que Annecy começava verdadeiramente.
Longe da confusão, o lago voltava a ser um lugar de silêncio. Íamos navegando sem pressa, almoçávamos a bordo, mergulhávamos quando a água convidava e deixávamos simplesmente o tempo passar.
Só mais tarde regressávamos à cidade.
Passeávamos um pouco pelas ruas, comíamos um gelado e voltávamos para casa.
Repetimos este ritual várias vezes ao longo dos anos.
No fim, as memórias que guardamos de Annecy não são as da cidade nem das suas ruas pitorescas.
São as de um barco, de duas sandes, de um lago imenso e da sensação de termos encontrado a nossa própria forma de viver um dos lugares mais bonitos dos Alpes.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Durante os anos em que vivemos em Genebra fomos inúmeras vezes a Lavaux.
E, curiosamente, nunca aconteceu o que costuma acontecer com os lugares que se repetem. Nunca se tornaram banais.
Cada visita voltava a cortar-nos a respiração.
De um lado, os socalcos cobertos de vinhas que descem até ao lago. Do outro, os cumes escarpados dos Alpes a erguerem-se do outro lado da água. Pelo meio, o Lago Léman, tão transparente que, nos dias quentes de verão, era impossível resistir a um mergulho.
Parecia um lugar desenhado para existir em perfeita harmonia.
Foi numa dessas visitas que descobrimos uma pequena cabana de madeira, perdida entre as vinhas. Era explorada por um belga que servia vinho e petiscos a quem por ali passava.
Sentámo-nos ali, rodeados pelas vinhas, com o lago à nossa frente e as montanhas no horizonte.
Era um lugar simples, sem pretensões.
Talvez por isso tenha ficado tão bem guardado na memória.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Durante os anos em que vivíamos em Genebra, Espanha e Itália tornaram-se destinos frequentes de pequenos escapes. Íamos passar um fim de semana, ficávamos num Airbnb simples, visitávamos os mercados locais e regressávamos com a mala cheia de produtos que nos faziam lembrar o Mediterrâneo.
Granada foi uma dessas viagens.
Não visitámos a Alhambra.
Encontrámos, no entanto, uma forma inesperada de entrar no seu universo.
O Hammam Al Ándalus é inspirado na arquitectura da Alhambra e, desde a entrada, parece pertencer a outro tempo.
O espaço é escuro e intimista, iluminado apenas por pequenas lamparinas. A pedra, os arcos, a água quente e o silêncio criam uma atmosfera quase subterrânea, como se estivéssemos dentro de uma construção escavada na própria terra.
Entre piscinas de diferentes temperaturas, vapor e silêncio, deixámos de sentir que estávamos simplesmente num spa.
Era como atravessar uma porta para outra época.
Não vimos a Alhambra nessa viagem.
Mas, de certa forma, encontrámos um pequeno pedaço dela debaixo de água.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Entrar na Hagia Sophia foi como entrar num lugar onde o tempo tinha ficado acumulado.
Quase quinze séculos de história estão ali dentro, uns sobre os outros. Basílica cristã, mesquita otomana, monumento de uma cidade que mudou de impérios, religiões e nomes — tudo deixou marcas.
O que mais nos impressionou não foi apenas a dimensão ou a grandiosidade da arquitectura.
Foi olhar em volta e perceber que nada tinha sido completamente apagado.
Os mosaicos cristãos convivem com a caligrafia islâmica. A enorme cúpula domina o espaço enquanto, por baixo dela, se encontram vestígios de épocas completamente diferentes. A luz atravessa o interior e parece juntar tudo aquilo numa única imagem.
Não é uma história que se explica facilmente.
É uma história que se vê.
Ficámos ali a olhar, tentando absorver a sensação estranha de estar num lugar onde civilizações diferentes deixaram de ser capítulos separados e passaram a fazer parte da mesma arquitectura.
Foi uma das visitas que mais nos marcou em Istambul.
Não pelo que aprendemos sobre ela.
Pelo que sentimos ao estar lá dentro.
—

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Durante os anos em que vivíamos em Genebra, fomos várias vezes a Chamonix.
A proximidade tornava-a um destino fácil para uma escapadinha: uma vila alpina francesa, rodeada por algumas das montanhas mais impressionantes dos Alpes.
A grande atracção de Chamonix é, naturalmente, a subida à Aiguille du Midi, a mais de 3.800 metros de altitude, com aquela imagem que parece desafiar a lógica: pequenos cubículos suspensos por cabos, presos a uma parede de rocha quase vertical.
Nunca subimos.
Havia duas razões para isso.
A primeira era o preço: já na época rondava os 120 euros por pessoa.
A segunda era mais simples: medo.
A ideia de estar dentro daqueles pequenos espaços suspensos sobre uma escarpa de rocha, com aqueles picos afiados por baixo, era mais aterradora do que fascinante.
Sabíamos que uma queda daquela altura seria sempre fatal, mas ali, com a montanha tão próxima e tão abrupta, a sensação parecia ainda mais intensa.
Por isso ficámos cá em baixo.
Passeámos pela vila, comemos qualquer coisa, admiramos o Mont Blanc e deixámos que a montanha fizesse aquilo que faz melhor: impressionar.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Durante anos, Chianti fez parte do imaginário da Toscana.
O nome evocava vinhas, colinas, estradas sinuosas e aquele cenário italiano tantas vezes visto em fotografias.
Fomos até lá para descobrir as vinhas tão famosas.
E talvez o problema tenha sido a expectativa.
Encontrámos uma paisagem bonita, com pequenas parcelas de vinha espalhadas pela região, recortes verdes entre colinas, mas muito mais discretos do que imaginávamos.
Não era feio. Pelo contrário.
Tinha a beleza tranquila da Toscana.
Mas a comparação era inevitável.
Quando chegámos a Chianti, já trazíamos connosco a memória de Lavaux.
Curiosamente, antes de vivermos na Suíça, nunca tínhamos ouvido falar de Lavaux. Era uma paisagem desconhecida para nós. Mas, ao longo de sete anos, tornou-se uma presença constante: as vinhas em socalcos a descerem até ao Lago Léman, os cumes escarpados dos Alpes do outro lado da água e aqueles mergulhos no lago cristalino nos dias de verão.
Chianti tinha a fama.
Lavaux tinha-nos conquistado pela surpresa, pela escala e pela beleza inesperada.
E talvez por isso, apesar da sua beleza, Chianti nos tenha sabido a pouco.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Pisa é uma cidade estranha.
Imortalizada pela sua Torre inclinada, é muito diferente das outras cidades e vilas italianas onde a beleza se descobre lentamente: nas pequenas ruas e vielas, nas piazzettas, nas igrejas escondidas e nos detalhes que aparecem a cada esquina.
Em Pisa, tudo parece concentrado num único lugar.
Na Piazza dei Miracoli estão reunidos todos os grandes símbolos da cidade: a Torre, a catedral, o batistério e o campo-santo. Tudo muito branco, monumental, perfeitamente disposto naquele enorme espaço aberto.
E foi precisamente isso que nos causou estranheza.
Parecia quase um cenário montado, como se os monumentos tivessem sido cuidadosamente colocados lado a lado para serem admirados de uma só vez. Não tinha a descoberta espontânea das cidades italianas que tanto gostamos — aquelas em que se perde uma tarde simplesmente a caminhar sem destino.
Pisa tem uma beleza inegável, mas para nós ficou a sensação de uma cidade onde o cartão-postal se sobrepôs à própria cidade.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Subimos a Gornergrat de comboio, numa das paisagens alpinas mais impressionantes que vimos.
A viagem desde Zermatt é feita lentamente pela montanha, até chegar a um cenário completamente diferente daquele que tínhamos deixado para trás.
No topo, a mais de 3.000 metros de altitude, encontrámos as neves eternas dos Alpes e uma vista imponente sobre o Monte Rosa, com o seu maciço branco a dominar a paisagem.
Foi a primeira — e única — vez que estivemos a uma altitude assim.
A sensação não era apenas visual. O próprio corpo lembrava-nos onde estávamos.
Não dava para correr: o ar faltava e qualquer esforço fazia-se sentir.
Ficámos ali a admirar aquela imensidão, perante montanhas que pareciam pertencer a outro mundo.
Mais do que uma fotografia bonita, ficou-nos a sensação de ter chegado a uma altitude que nunca tínhamos experimentado.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Wengen é uma pequena vila alpina onde não circulam carros. Para lá chegar, sobe-se de comboio a partir de Lauterbrunnen, numa curta viagem de montanha que já faz parte da experiência.
É também durante essa subida que se revela uma das paisagens mais impressionantes da Suíça: o vale de Lauterbrunnen encaixado entre gigantescas paredes de rocha, com cascatas a cair de centenas de metros e os Alpes a fechar o horizonte.
Numa das vezes que subimos a Wengen, aconteceu algo inesperado.
Ao entrar no comboio, deparámo-nos com uma grande quantidade de turistas indianos. De repente, aquela viagem pela montanha suíça ganhou uma atmosfera completamente diferente.
Por alguns minutos, entre os Alpes, as enormes paredes de rocha e as cascatas, parecia que nos tínhamos transportado para outro continente.
Era uma imagem curiosa: uma das vilas mais típicas da Suíça, acessível apenas por comboio, cheia de vozes, cores e vida vindas de tão longe.
Uma pequena surpresa de viagem — daquelas que ficam precisamente porque ninguém as planeou.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
O Aescher-Wildkirchli é daqueles lugares que parecem quase impossíveis.
Fica encaixado numa falésia, agarrado à rocha da Ebenalp, no cantão de Appenzell, com os Alpes suíços a estenderem-se diante dele.
Chegámos de teleférico e, a partir daí, fizemos o pequeno percurso a pé até ao restaurante.
O caminho já faz parte da experiência. Atravessa uma zona rochosa e passa por um pequeno túnel escavado na montanha.
E depois aparece.
O edifício encostado à parede de pedra, naquele equilíbrio improvável entre a construção humana e a montanha, parece quase fazer parte da própria falésia.
O restaurante em si não nos ficou particularmente na memória.
O que ficou foi estar ali.
A sensação de estar suspenso entre a rocha e o vazio, com uma paisagem alpina imensa diante de nós.
Há lugares onde a construção é o mais importante.
Ali, era a montanha.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Château-d'Oex é conhecida como uma das capitais mundiais dos balões de ar quente. Todos os anos, no inverno, a pequena vila dos Alpes suíços recebe o seu famoso Festival Internacional de Balões, enchendo o céu de cores sobre as montanhas.
Fomos até lá com uma amiga num daqueles dias perfeitos: céu azul, sol e uma paisagem alpina que parecia feita para receber dezenas de balões coloridos a cruzar lentamente o céu.
Havia um recinto preparado para assistir ao espetáculo, com entrada paga. Mas não era isso que procurávamos. Queríamos simplesmente passear pela vila, sentir o ambiente e admirar os balões.
A certa altura, enquanto os três estávamos numa das ruas de Château-d'Oex, parados a olhar o céu, fomos abordados por um responsável que nos informou que, para assistir ao espetáculo, teríamos de comprar bilhete — mesmo estando fora do recinto.
A surpresa foi inevitável.
Estávamos numa rua pública, apenas a olhar para o céu.
A resposta foi simples: sem bilhete, teríamos de continuar a andar.
E assim fizemos.
Continuámos a caminhar pela vila, a olhar para o céu azul e para os balões coloridos que continuavam a atravessar os Alpes.
Afinal, o espetáculo continuava ali — gratuito, aberto e impossível de impedir.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Chegar à Playa de Cofete já é uma aventura.
A estrada de acesso é uma pista de terra que atravessa as montanhas da Península de Jandía, entre uma paisagem árida e desolada, até que, de repente, o oceano aparece lá ao fundo.
Quando finalmente chegámos à praia, a primeira sensação foi estranha.
Parecia que tínhamos chegado ao Afeganistão.
Não havia hotéis, restaurantes, multidões ou qualquer outra coisa que lembrasse uma típica praia de férias. Apenas uma extensão imensa de areia, montanhas vulcânicas quase sem vegetação e um mar forte.
Era fevereiro e estávamos praticamente sozinhos.
A escala da paisagem tornava-nos pequenos. Durante alguns momentos, parecia que tínhamos entrado num cenário de outro planeta — ou de outro tempo.
Cofete não era propriamente uma praia para ir nadar.
Era uma paisagem para ficar a olhar.
E foi precisamente isso que fizemos.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Num dos dias em Fuerteventura parámos num miradouro.
O que não esperávamos era encontrar esquilos.
Andavam por ali à procura das pessoas, bastante habituados a quem passava e, provavelmente, às pequenas ofertas que recebiam.
Nós já estávamos habituados a eles dos parques de Dublin e, claro, não resistimos a tentar dar-lhes alguma comida.
Um deles, porém, estava particularmente entusiasmado.
Aproximou-se, aceitou a oferta e, num excesso de confiança, resolveu experimentar também o dedo do Paulo.
Mordeu.
Mais uma vez, um animal decidiu que o Paulo era comestível.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
No nosso 20.º aniversário de casamento fizemos uma das viagens com que mais sonhámos: a Índia.
Foram anos de preparação, de antecipação e de planeamento. Mas não procurávamos uma Índia qualquer.
Queríamos descobrir uma Índia de beleza, harmonia e encantamento. Uma Índia diferente da imagem mais imediata de contrastes e multidões. Uma Índia onde a arquitectura, o serviço e a tranquilidade fizessem parte da própria experiência.
Foi nessa viagem que conhecemos os Oberoi.
Na altura, ainda não tínhamos plena consciência daquilo que esta cadeia representava. Sabíamos que eram bons hotéis, mas não imaginávamos que esta experiência iria mudar a nossa forma de olhar para a hotelaria e elevaria definitivamente a nossa fasquia.
Nos Oberoi descobrimos que um hotel podia ser muito mais do que um lugar onde se dorme. Podia ser uma parte essencial da viagem.
Ficámos em três propriedades: The Oberoi New Delhi, The Oberoi Amarvilas em Agra e The Oberoi Udaivilas em Udaipur.
Cada uma delas mágica à sua maneira.
Também nos apaixonámos pela arquitectura de inspiração mogol, pela forma como os espaços parecem contar uma história através dos pormenores: os jardins, a simetria, os mármores, a água, os arcos e a harmonia entre os edifícios e a paisagem.
Delhi serviu sobretudo de ligação entre os dois grandes destinos da viagem: Agra e Udaipur. Mas nem por isso deixou de nos surpreender.
Era uma propriedade mais moderna, com uma arquitectura diferente das restantes, um ambiente tranquilo e pequenos detalhes inesperados, como a piscina com música subaquática.
Fizemos todos os transfers com o hotel: chegada do aeroporto, ida à estação de comboios e todas as ligações da viagem.
Um pequeno detalhe mostrou-nos desde cedo o significado de verdadeira hospitalidade.
Tínhamos pedido transporte para a estação. Era muito cedo, demasiado cedo para tomar o pequeno-almoço no hotel. Sem que tivéssemos de pedir, prepararam-nos um pequeno-almoço em formato de lanche para levar.
Mas nem esse foi o detalhe mais impressionante.
Quando dizemos que nos levaram ao comboio, não significa simplesmente que nos deixaram na estação.
Levaram-nos até aos nossos lugares, dentro do próprio comboio.
E quando chegámos ao Oberoi Amarvilas, em Agra, fomos recebidos com uma chuva de pétalas de rosa. Não se viam as mãos que as lançavam; apenas as flores a cair do céu.
Ao longo da viagem fomos ainda surpreendidos com vários presentes de aniversário.
Mais do que hotéis onde ficámos, os Oberoi tornaram-se parte da própria memória daquela Índia que sonhámos conhecer.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Há histórias de amor que sobrevivem aos séculos.
A do imperador Shah Jahan e da sua mulher, Mumtaz Mahal, foi eternizada em mármore branco. Depois da morte da esposa, durante o nascimento do seu décimo quarto filho, o imperador mandou construir o Taj Mahal, transformando a dor numa das obras mais extraordinárias alguma vez criadas pelo homem.
Foi precisamente no ano em que celebrávamos o nosso 20.º aniversário de casamento que fomos até Agra.
Mas nunca entrámos no Taj Mahal.
Ficámos no The Oberoi Amarvilas, o único hotel com vista direta sobre o monumento. Da varanda do quarto, dos jardins, da piscina ou dos restaurantes, o Taj Mahal estava sempre presente.
Acompanhou-nos ao pequeno-almoço, ao almoço, ao jantar e ao pôr do sol.
Chegámos a ponderar a visita, mas significava acordar ainda antes do nascer do sol, enfrentar longas filas e, sobretudo, abandonar a tranquilidade daquele lugar onde o Taj fazia parte da paisagem.
Acabámos por escolher ficar.
Pode parecer estranho viajar até Agra e nunca pôr os pés no seu monumento mais famoso. Mas nunca sentimos que nos tivesse faltado alguma coisa.
Durante vários dias, contemplámo-lo à distância, em silêncio, vendo o mármore mudar de cor com a luz do dia.
Talvez não exista uma única forma de conhecer o Taj Mahal.
A nossa foi simplesmente vivê-lo sem nunca o visitar.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Durante a nossa estadia no The Oberoi Udaivilas, tivemos uma experiência difícil de esquecer: um almoço servido a bordo de um barco, no meio do Lago Pichola.
A perfeição começou por sofrer um pequeno contratempo.
Enquanto aguardávamos para embarcar, vimos alguns elementos do staff transportar toda a refeição para o barco. Não sabemos bem como, mas, num instante, acabaram por deixar cair tudo no chão.
Sem um sinal de nervosismo, recolheram o que era preciso, voltaram ao hotel e, pouco tempo depois, regressaram com um novo serviço, como se nada tivesse acontecido.
E, na verdade, nada aconteceu.
Pouco depois estávamos no meio do lago, rodeados pelo City Palace, pelo Jag Mandir e pelas águas tranquilas de Pichola.
A comida era excelente, o serviço irrepreensível e havia um detalhe que nos impressionou particularmente: sempre que pedíamos alguma coisa que não estava a bordo, o barco aproximava-se do hotel, um membro da equipa ia buscá-la e, poucos minutos depois, o serviço continuava como se estivéssemos sentados num restaurante.
Foi uma tarde passada sem pressas, entre boa comida, uma paisagem extraordinária e um nível de serviço que raramente voltámos a encontrar.
É fácil recordar o luxo daquele almoço.
Mas, curiosamente, também nunca esquecemos os pratos espalhados no chão, minutos antes de embarcarmos. Afinal, até as experiências mais perfeitas têm direito a um pequeno imprevisto.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
O lago Oeschinen é um dos cenários mais bonitos dos Alpes suíços. Antes de descer até ao lago, existe um tobogã de montanha que serpenteia pela encosta, sempre com uma vista magnífica sobre os picos e os vales em redor.
Claro que tínhamos de experimentar.
Cada um segue no seu próprio tobogã e, à partida, tudo parece simples: acelerar quando se quer andar mais depressa, travar quando a velocidade começa a assustar.
Na teoria.
Na prática, a certa altura senti que estava a ganhar velocidade a mais e decidi travar. Ou, pelo menos, foi isso que pensei que estava a fazer.
Na realidade, tinha carregado no comando para acelerar.
Atrás de mim, o Paulo percebeu imediatamente o que estava a acontecer. Enquanto tentava aproximar-se para me avisar, gritava desesperado:
— Trava!
E eu respondia, igualmente aflita:
— Estou a travar!
O problema era esse.
Eu tinha a certeza absoluta de que estava a travar.
Só que o tobogã continuava a acelerar.
No fim correu tudo bem, mas durante aqueles segundos não tivemos olhos para a paisagem. Só voltámos a apreciá-la quando parámos… e conseguimos finalmente rir do susto.